Porta Premium traz de volta os mockumentaries à televisão portuguesa. Manuel Reis fala com Tota Alves, criadora da série, sobre especulação imobiliária, auto-estima laboral, e “Louresh”. Todos os episódios estão disponíveis na RTP Play.

Depois lançam-se algumas questões sobre a aquisição da Warner pela Netflix e sobre o impacto que a mesma poderá ter na produção nacional.

Transcrição

Já a seguir, falo com a Tota Alves, criadora da Porta Premium, a nova série que nos leva ao maravilhoso mundo da especulação imobiliária…

E falo um pouco sobre a notícia fresca da compra da Warner pela Netflix e as implicações que isso poderá ter para o mercado nacional.

Fiquem por aí.

<música>

Olá a todos, bem-vindos a mais um episódio do Já a Seguir comigo, Manuel Reis. Obrigado a todos os que descarregaram, ouviram e partilharam os episódios de estreia.

Vamos já ao nosso tema principal: O mockumentary, um falso documentário cómico, é um género que vende muito bem, é comercialmente atractivo. O sucesso internacional de The Office, tanto da versão original britânica como da americana, bem como o de Modern Family e, em menor escala, de séries como Parks and Recreation ou What We Do In The Shadows, é demonstrativo disso mesmo. Caramba, Portugal teve um, anterior a The Office, num registo mais surrealista e até burgesso, que foi um sucesso: os 26 episódios de Paraíso Filmes, sobre a Hollywood da Trafaria, faz parte da minha colecção de essenciais da comédia portuguesa. (E, para quem quiser ver ou rever, estão todos disponíveis no site dos arquivos da RTP.)

Por isso, devem imaginar a minha felicidade quando soube que estava a ser desenvolvido um mockumentary para um canal nacional. Ainda mais pré-satisfeito fiquei quando soube em que mãos estava este trabalho: as da Tota Alves, que já nos deu dois bons trabalhos no RTP Lab, O Meu Sangue e Dolores, e que participou na escrita de várias outras séries, incluindo Erro 404, também na RTP. Obviamente, estou muito feliz por poder falar com ela sobre esta nova série.

Antes disso, quero só lembrar tanto a quem já ouviu como aos que cá chegaram pela primeira vez que o Já a Seguir está pronto para receber a vossa subscrição na vossa plataforma de podcasts preferida. Já está nos Podcasts da Apple, no Overcast, no Pocket Casts, no Spotify e, se não estiver na que vocês usam, podem vir falar comigo e eu vejo o que se pode fazer. Aqui não há chatbots de suporte técnico, há humanos. De suporte técnico.

Por falar em humanos, não seríamos nada sem eles, por isso fiquem com a conversa com a…

MANUEL: TOTA! Tão bom, tão bom ter-te aqui.

TOTA: Obrigada!

MANUEL: Estou muito feliz por, finalmente, estarmos a falar disto.

TOTA: Obrigada, eu também estou feliz de estar aqui.

MANUEL: Porque já tínhamos falado assim, quando nos cruzávamos, “ah, o que é que andas a fazer? Estou a fazer isto, não sei o quê, um mockumentary.” E eu estou bastante satisfeito com o resultado, muito sinceramente.

TOTA: Boa, obrigada. Ainda bem que gostaste!

MANUEL: Nós, da última vez que falámos neste registo, foi com o Erro 404, se não estou em erro.

TOTA: Exactamente, já há bastante tempo.

Já há bastante tempo… entretanto tu fizeste também uma curta-metragem magnífica, que é a Conseguimos Fazer um Filme.

TOTA: Tu viste? Conseguiste ver?

MANUEL: Vi!

Ah, uau. Onde é que viste?

MANUEL: No São Jorge!

TOTA: Ah, que fixe!

MANUEL: Três minutos depois… fui dar-te os parabéns…

TOTA: Pois, mas enfim, foi na estreia, não é? Foste tu e muita gente! Mas é, foi um dia… se viste no São Jorge, foi dia de estreia, e eu estava…

MANUEL: Sim, sim, claro.

TOTA: Estava mesmo muita gente lá, estava muita assoberbada, não me lembro, desculpa.

MANUEL: Estava cheia, a sala. Cheia ou perto disso.

TOTA: Pois, estava muito cheia.

MANUEL: Sim, sim.

TOTA: Boa.

MANUEL: Mas é muito gira, a curta, gostei muito…

TOTA: Obrigada.

MANUEL: … e, de certa forma, tem alguns elementos que também podem ser vistos nesta nova série. Vistos, ouvidos, referidos nesta nova série.

TOTA: Sim, sim. E tem o meu olhar, não é? Que é algo que esta série também tem. Acho eu.

MANUEL: Sim, tem, tem, tem. E já vamos falar sobre isso. A primeira pergunta que eu te queria fazer é, o que é que nasceu primeiro? O ovo ou galinha? Ou, neste caso, o que é que… o que é que veio primeiro? O formato ou o local?

TOTA: O formato, totalmente. Até porque o local podia ser qualquer local da região de Lisboa, ou região do Porto, ou até Algarve, porque a história seria exatamente a mesma. De todo, Loures surgiu na fase final.

MANUEL: “Louresh!”

TOTA: “Louresh” surgiu na fase final. Mas, por acaso, nós escrevemos sempre partindo do princípio que era Loures, mas foi um mero acaso, ou seja, nós tínhamos de escolher um sítio para o argumento e que depois iríamos adaptar, não é?

MANUEL: Perto de Lisboa, porque guito.

TOTA: Exacto, perto de Lisboa porque guito, e esta série foi feita com muito pouco guito, portanto, a hipótese de deslocarmos toda a equipa não era uma possibilidade. Então, foi isso. Primeiro surgiu o formato, a ideia, a própria narrativa, e só depois é que… os arcos narrativos, e só depois é que surgiu Loures. Louresh.

MANUEL: “Louresh”, “Louresh”.

TOTA: That’s the spirits.

MANUEL: A equipa de escrita é que é uma bela equipa: foste tu, o Diogo Figueira, com quem trabalhaste, se não estou em erro, n’ A Travessia, e também a Susana Romana, que já… pronto, quem não conhece a Susana Romana, que tem uma longa experiência na escrita de comédia e que também já trabalhou neste formato antes, no Filho da Mãe, no Canal Q, talvez uma das grandes séries-legado do Canal Q.

TOTA: E foi realmente…

MANUEL: Eu ia-te perguntar se foram escolhas que surgiram naturalmente para ti.

TOTA: Foram. O Diogo é uma pessoa que eu conheço… Foi das primeiras pessoas a quem eu disse em voz alta que queria ser argumentista. Ele é amigo do meu companheiro, e jantámos uma vez, e foi ele que me aconselhou sobre o meu percurso, o que é que eu havia de fazer, e foi graças a ele que eu fui estudar escrita para argumento. Então é uma pessoa que, embora não sejamos muito íntimos, é uma pessoa que eu estimo muito, que tenho muito carinho, e é um prazer aprender com ele, trabalhar com ele. E a Susana Romana, eu já conhecia o trabalho dela, claro, e fiz um workshop com ela, e foi muito fixe, gostei muito do workshop, correu muito bem, e por isso vi que ela tinha um músculo do humor muito ágil, e achei que ela seria uma ótima pessoa para escrever esta série, e foi, nós os três, funcionamos muito bem, foi muito bom.

MANUEL: E, se calhar, também o olho para… acho que todos, na verdade, porque todos sofremos com isso, todos com o olho para a crítica social que é feita na série.

TOTA: Sim, claro, isso para mim era algo fundamental.

MANUEL: Sim, e tanto de uma forma mais óbvia, como, se calhar, de uma forma mais subtil. Acho que um dos grandes triunfos dos mockumentaries, até lá fora, é fazer o desenvolvimento dos personagens, se calhar, de uma forma menos direta, e (vou entrar em redundâncias) pouco óbvia. Não estamos só a falar de palhaços que andam ali, não é? Estamos a falar de seres humanos.

TOTA: Claro, de pessoas que também têm os seus problemas, que elas próprias são vítimas da crise da habitação, e quis dar essa profundidade a todas as personagens, ou seja, mesmo nós sabendo que aquelas pessoas são, em parte, responsáveis pelo estado do negócio da habitação, que devia ser um direito e passou a ser um negócio, nós gostamos delas, não é? E isso para mim era algo fundamental, que toda a gente gostasse do Ramiro, que toda a gente gostasse da Graça, da Marisa, de todas as personagens.

MANUEL: Eu não gosto do Ramiro.

TOTA: Não?

MANUEL: Não, não gosto do Ramiro, não gosto de Ramiro.

TOTA: Está bem. Eu gosto.

MANUEL: Desculpa, desculpa, não, não gosto de Ramiro, não consigo, não consigo, não consigo.

TOTA: Ok.

MANUEL: Não, mas eu consigo ver que há humanidade ali, que ele tem os seus problemas, não é?

TOTA: Claro, e que ele é um, ou seja, é uma pessoa que se está, que se está a tentar safar na vida, não é? Que infelizmente não olha a meios para atingir os fins, mas, e que infelizmente essa também é uma realidade do sector imobiliário, mas que ao mesmo tempo é um ser humano que tem falta de amor, que tem falta de carinho, que vê no trabalho a fuga para todos os problemas de masculinidade dele, e ao mesmo tempo para canalizar toda essa energia também.

MANUEL: Uma má relação com família.

TOTA: Claro. E também, pronto, o facto de serem só cinco episódios não permite que haja uma profundidade tão grande quanto a que eu gostaria, não é? Cinco episódios neste formato é muito pouco.

MANUEL: Ainda bem que falas nisso.

TOTA: Sim, sim. E eu sinto, por exemplo, eu sinto e assumo isso, eu acho que o último episódio é metido a ferros, não é? Porque a série, mas há uma necessidade, porque tinha de haver um último episódio, porque este tipo de formato aguenta-se 13 episódios perfeitamente bem, que é o normal para este tipo de série, são seasons de 12, 13 episódios, e que permite um arco narrativo de cada personagem muito mais coeso e menos apressado.

MANUEL: Aliás, se formos por aí, até te digo, acho que vocês conseguiram fazer muito bem algo que muitos mockumentaries, nomeadamente o The Office e projetos associados, não só os spin-offs — neste caso o The Office americano e os spin-offs posteriores ao The Office americano e às adaptações do The Office britânico, mas também outros documentaries de outras pessoas que trabalharam no The Office, ou mesmo, estou-me a lembrar do St. Denis Medical, estou-me a lembrar do Parks and [Recreation], que têm alguma dificuldade nos primeiros… cinco episódios, lá está, em conseguir arrancar a máquina e conseguir dizer e perceber aquilo a que vem.

E eu lembro-me… o episódio em que praticamente toda a gente diz que é o episódio definitivo de The Office, ou que definiu o The Office americano para a frente, foi o “Basketball”, que é o quinto episódio da série.

TOTA: E a segunda série de The Office é muito mais robusta, muito mais… Tu já conheces aqueles personagens bem, então, quer os argumentistas, quer os actores, quer toda a equipa, já consegue esticar para um lugar que na primeira season ainda era muito arriscado, não é?

MANUEL: A meu ver, e há malta que me chama herege, por eu dizer isto, faz um desenvolvimento dos personagens muito melhor, também porque tem tempo, mas porque tem outra perspectiva do que a série britânica.

TOTA: Claro. Eu tendo a concordar também… eu tendo a concordar porque o The Office americano conseguiu fazer uma coisa que veio de uma norma da direcção, não é? Da direcção do canal, de quem tem o dinheiro, que foi, disseram que nós temos de gostar de Michael Scott, não é? A diferença entre a primeira temporada e a segunda temporada é que o Michael Scott deixou de ser apenas um chefe egocêntrico e incómodo, e passa a ser também um chefe fixe e uma pessoa porreira e que nós conseguimos ver de onde é que vem aquela insegurança toda dele. E isso é uma grande diferença. No caso do The Office inglês, para mim custa muito empatizar aquela personagem.

MANUEL: O David Brent é só aquilo.

TOTA: Exato, é isso, não conseguimos ver. E por isso é que eu acho que o The Office americano acaba por ser mais robusto narrativamente, mais interessante, pronto.

MANUEL: Sim, sim. E, lá está, vocês conseguiram fazer isso muito bem logo no primeiro e segundo episódios, que não é comum, e dou-vos uns parabéns.

TOTA: Boa, ainda bem. Obrigada.

MANUEL: Mas já que aqui estamos, e vamos presumir que as pessoas já viram todos os episódios, porque estão todos na RTP Play, foram todos lançados lá ao mesmo tempo… Já agora, esta vai ser má: Belisca-te o facto de ser exclusiva a RTP Play?

TOTA: Não, nada! A mim? Não, não. Eu tenho muito orgulho de trabalhar com a RTP, um canal público, que eu defendo muito, com uma plataforma de streaming pública e gratuita.

MANUEL: É verdade.

TOTA: Pode ser vista, no caso da Porta Premium, pode ser vista mundialmente, ou seja, todas as pessoas que estão na diáspora portuguesa podem ter, têm acesso, incomoda-me zero. Muito pelo contrário, é um grande orgulho ter projetos na RTP Play e na RTP. Espero continuar a trabalhar com o canal, porque gosto muito da relação que tenho com a RTP. Devo muito a RTP, se não fosse a RTP e o RTP Lab eu não estava aqui hoje, e portanto sou 100% grata e tenho muito orgulho de trabalhar com a RTP.

MANUEL: Recordando os dois trabalhos anteriores, O Meu Sangue e Dolores, todos disponíveis na RTP Play.

TOTA: Se eu gostava de trabalhar com mais dinheiro: evidentemente, não é? Como é claro, e quando entram outras plataformas há essa injeção de dinheiro também. Esta é a minha primeira série grande, não é? Com atores profissionais, com um elenco profissional, com montes de profissões com quem eu nunca tinha trabalhado, nunca tinha trabalhado com anotadora, com assistente de realização.

Tudo aquilo que eu fiz foi realização, direção de fotografia, direção de som. Mais nada. Produção, às vezes, no caso do Dolores e do meu sangue, produção em escritório, mas eu nunca tinha trabalhado com mais de três pessoas numa rodagem.

MANUEL: E aqui também temos esta assistência da Andreia Nunes, que foi…

TOTA: Eu adorei trabalhar com a Andreia Nunes, da Wonder Maria Filmes, e com o Bruno Cabral.

São produtores maravilhosos, são pessoas que leem os guiões, que comentam, que elevam o trabalho, que fazem críticas construtivas, que são muito presentes ao nível do trabalho e na compreensão emocional, que é um privilégio trabalhar com pessoas com quem conseguimos falar de sentimentos, de inseguranças, de vontades, de medos.

E também tive o privilégio de ter o acompanhamento no guião, através de supervisão, mentoria, desenvolvimento, da Fernanda Polacol, que é outra associada da Wonder Maria Filmes e que é uma grande argumentista, que teve o privilégio de que lesse os guiões e que comentasse e fizesse perguntas e me ajudasse a fazer o desenvolvimento da série.

MANUEL: Aliás, isso parece-me uma linha comum nos projetos da Wonder Maria, até no Honeyjoon, que estreou no Tribeca. Não sei se já tive esta oportunidade de ver.

TOTA: Eu ainda não vi, mas quero muito ver.

MANUEL: É muito bonito e é um filme que vale a pena ver e vai estrear acho que na Primavera, ainda não tenho a certeza, ainda não dá para se definir isso. Mas que é um filme muito bonito, um grande trabalho da Andreia enquanto produtora, que já vi no Tribeca e fiquei muito satisfeito com o resultado final.

TOTA: Bom, eu estou muito curiosa.

MANUEL: Sim, e já a minha curta foi produzida a partir da pós-produção, foi também a primeira vez que trabalhei com a Andreia e realmente é um sonho, sinceramente. Eu recomendo a todas as pessoas que trabalhem com a Andreia, embora isto seja contra mim, porque quando mais pessoas trabalharem com a Andreia, menos ela trabalha comigo.

MANUEL: Pois, isso aí tens que te aguentar.

TOTA: Claro, sim, desejo de tudo bem, de tudo bem.

MANUEL: Há um elenco… estavas a falar do elenco profissional e temos um elenco magnífico, eu quando disse à minha mãe que esta série tinha o Gonçalo Waddington… já agora, recordando uma de duas séries com o Gonçalo Waddington a estrear no mesmo dia…

TOTA: Mesmo! É verdade, é verdade,

MANUEL: … em que ele faz de sacana! Na outra é mais sacana do que nesta.

TOTA: Pois é, nesta ele é um sacana fofinho e engraçado.

MANUEL: Já viste a outra?

TOTA: Não, só vi teasers e trailers nas redes do Gonçalo.

MANUEL: Mas na outra ele é mesmo um filho da mãe odiável que toda a gente festeja a morte dele. Eventual morte dele. (spoiler de uma história de há 20 anos, que foi um marco na cultura pop) Mas para além do Gonçalo tens a incrível Tânia Alves, que parece nascida para isto, a Janico Durão, que eu não conhecia…

TOTA: E que é o primeiro trabalho dela, como atriz.

MANUEL: Está completamente agarrado ao papel, no bom sentido — agarrada ao papel que está a interpretar, não ao guião, porque essa distinção vai para a Sónia Balacó, que também faz um… Ela é excelente e acho que nunca a tinha visto neste registo mais aparvalhado.

TOTA: Ela é muito boa, todos estão muito bons, o Mauro Hermínio, também. O Carlos [Pereira] está ótimo, o Miguel Guilherme. A Rita Pereira…

MANUEL: Vamos falar da Rita Pereira, porque eu digo que a Rita Pereira é daquelas pessoas que se lhe dermos um bom texto e uma boa realização, ela pode fazer coisas que as pessoas nem sonham.

TOTA: Eu também acho. E foi um prazer. Olha, foi muito surpreendente ela ter aceitado este convite, especialmente tendo em conta o guião, o guião que foi escrito para ela coloca-a numa posição de fragilidade. Mas também termina super bem com ela, super empoderada, e realmente foi um prazer trabalhar com ela. Ela foi super porreira, flexível, com as dinâmicas de um dia de caos, porque sempre que filmamos fora da agência foi sempre muito caótico. Aliás, já havia cenas com ela que tiveram de cair, mas ainda bem que caíram, porque assim como está, funciona muito bem. E é isso. Realmente, ela percebeu o formato. Contracenou com a Sónia, com a Marisa, que também está muito bem nessa cena, e resultou muito bem. Fiquei muito surpreendida, muito feliz. Fiquei com muita vontade de ir ver outros formatos, realmente. E acho que ela também está com muita vontade de fazer outros formatos. Aliás, é a primeira vez que ela faz algo para a RTP, por exemplo.

MANUEL: A sério? Em tantos anos?

TOTA: Em tantos anos.

MANUEL: Eu lembro-me de ter falado com ela no [outro] programa, quando foi à apresentação da Max, que entretanto voltou a mudar de nome para HBO Max, porque é o que eles fazem, acho eu. Mas ela estava lá porque gravou uma novela no Brasil, uma novela curta de 50 episódios, que ainda não estreou, que é a nova adaptação da Dona Beja.

E estava muito… lembro-me da conversa que tivemos, que estava muito desejosa de fazer esses papéis, de não estar necessariamente agarrada só ao formato novela, e agora ver se a TVI, com a aposta que está a começar a fazer nas séries, que me parece que vai ser uma aposta mais recorrente se também pega nela, não é, ela? Acho que ainda tem contrato exclusividade com eles, não é?

TOTA: Claro, espero que sim. Não, não tem contrato exclusividade, senão não tinha entrado na Porta Premium.

MANUEL: Sim, mas é uma exclusividade…

Não, mas ela já não tem, não tem exclusividade.

MANUEL: Quem é que tem exclusividade? Isso também custa imenso.

TOTA: Eu acho que quase ninguém tem exclusividade, exatamente neste momento.

MANUEL: Eu já disse que fomos falando ao longo dos tempos, já sabia que estavas a fazer este projeto, e no dia de estreia mandei-te uma mensagem a dar-te os parabéns, e tu respondeste, agradeceste-te muito, e depois, olha, “quando vires o último episódio, diz-me o que é que achas. Mesmo que seja mau.” Pronto. E eu vou-te dizer o que é que acho. Aqui, em registo.

Não, vou-te fazer uma pergunta com base nisso, que é: a decisão de terminar ali a série no sentido de terminar o projeto de documentário… Foi uma decisão consciente? Porque nós já falámos antes sobre a dificuldade de ter segundas temporadas em Portugal.

Foi uma decisão consciente com base nessa ideia, foi uma decisão com base em… não, “é onde a história tem de acabar, isto é um documentário, mas na verdade é uma desculpa para lhes fazer uma crítica direta.”

Como é que foi essa decisão?

TOTA: Eu não refleti muito sobre isso, eu ganhei o concurso para fazer uma série, uma mini-série, com o final. Portanto, foi esse o trabalho que me propus. Eu acho que deixei a porta aberta para uma eventual segunda temporada, e assim, se houver interesse da RTP, mesmo que voltemos para a agência, eu acho que é possível manter uma segunda temporada com os mesmos personagens, com outros arcos narrativos, enfim, acho que é bastante possível.

MANUEL: Até porque os colocas todos em caminhos, ou praticamente todos, em caminhos distintos.

TOTA: Sinceramente, eu, com o que sei hoje, ou seja… Eu quando faço, e vou ser aqui muito sincera, que é: eu nunca soube se eu realmente era capaz de fazer. Estás a ver? Eu nunca soube se realmente ia chegar ao fim e ia estar bem. E mesmo quando cheguei ao fim e estava bem, eu não acreditei e continuo muito insegura, porque eu já vi tantas vezes, escrevi aquilo muitas vezes, realizei, vi muitas vezes, estive na pós-produção, de som, de cor, de montagem, tudo. Vi tantas, tantas vezes que eu agora só vejo os defeitos.

Eu fico muito surpreendida, como é que vejo tantos realizadores muito orgulhosos do seu trabalho! E claro que eu tenho orgulho do meu trabalho, mas eu sou muito, muito crítica e eu tenho uma lista das coisas que não voltarei a fazer, se houver uma segunda temporada. Eu acho que é… eu quis dar um final a esta minissérie, porque na minha cabeça nunca pensei que fosse correr bem, sabes? Que as pessoas fossem gostar. Para mim, eu estou muito espantada e estou muito entusiasmada com o quão as pessoas estão a gostar da série.

MANUEL: Eu acho que somos todos críticos do nosso trabalho e de vermos os defeitos onde eles estão depois de lidarmos com eles várias vezes. É parte daquela ideia de que primeiro escreves, depois editas e depois reescrevas, só que depois quando estamos a falar de outros formatos que não a escrita, não é? Da transposição da escrita para algo que vai ficar mais permanente, não é? Ficamos ali, “é pá, devia ter feito isto desta forma.”

TOTA: Sim, e também há… O facto de ser uma comédia torna as coisas mais difíceis, porque tu lês a primeira vez, tu ris a primeira vez que lês, percebes? Depois as outras é tipo, “ah não, isto não está a funcionar”, e precisas estar sempre a ter a validação das outras pessoas, percebes? Precisas de ver o elenco a rir, precisas depois de ver a montadora a rir. Enfim, mas eles próprios também já viram muitas vezes, então… é muito complicado, emocionalmente, gerir. Eu acho que o facto de ser comédia dificulta ainda mais essa autocrítica, eu acho.

MANUEL: Bom, o nosso tempo está a terminar. Eu quero te perguntar, primeiro por teres tido esta disponibilidade, quero te perguntar agora o que é que estás a fazer.

TOTA: Olha, eu ainda estou aqui muito na adrenalina da Porta Premium, não é? Ainda estou nesse lugar. Começo a ter vontade de pensar numa segunda temporada, gostava muito, especialmente se fosse algo para, por exemplo, uma série de Agosto, em que em vez de 5 episódios há 15 ou 20 ou 10, sei lá, eu gostava que fosse aí mais.

MANUEL: ‘Bora, Fragoso! ‘Bora, Zé! Vamos a isso! Vá lá!

TOTA: Mas neste momento estou… eu sou programadora de um festival de cinema para crianças, o Festival Play, portanto neste momento estou a ver muitas curtas metragens e estou a pensar sobre elas.

Ainda apresento também a minha curta metragem que está no final da sua… estamos agora a fazer os dois anos de festivais e por isso ainda tive nos últimos tempos alguns festivais em que fui apresentar a curta.

Estou a escrever uma série de animação para crianças que vou retomar no início do próximo ano, porque me interessa muito este universo infantil. E é um lugar onde posso divertir muito, porque fazer coisas para crianças é pensar em coisas engraçadas, especialmente quando é animação, podemos brincar a muita coisa.

E vou começar também a fazer candidaturas, não é? Para fazer mais séries, fazer mais filmes. Tenho muita vontade de fazer outra curta metragem, uma continuação da que eu fiz. E estou com muita vontade de deixar de ser tão precária quanto sou, ou seja, quero mais estabilidade económica.

MANUEL: Acho que este é o episódio que vai sair antes da greve geral, portanto.

TOTA: Não, mas é verdade, eu sinto que eu e o meu companheiro somos trabalhadores independentes e estamos sempre assim a esticar o dinheiro para chegar ao fim do mês, então tenho vontade de fazer coisas com mais condições para que eu também tenha uma vida mais confortável. Eu, que é aquilo que eu desejo a todas as pessoas.

MANUEL: Tu, eu, toda a gente, acho que, já que puxaste a brasa, a tua sardinha nesse aspeto, é importante perceber que isto do entretenimento é muito giro, mas é preciso que existam remunerações justas.

TOTA: Claro. Sim, é preciso que existam orçamentos que garantam o bem-estar de todas as pessoas.

MANUEL: Até uma base.

TOTA: É isso que eu desejo, para mim, para toda a equipa, para todos os trabalhos, para toda a cultura, porque senão continuamos a ter uma cultura que a meu ver é altamente elitista. Como é que uma pessoa se pode dedicar…

Por exemplo, eu para fazer a Porta Premium, a RTP só paga no final, quando se entrega o trabalho. E para fazer a Porta Premium eu tive a trabalhar durante muito tempo, todo o desenvolvimento, toda a escrita, em que estive — só quando começou a rodagem é que eu comecei a receber dinheiro — estive a trabalhar todo esse tempo enquanto me desdobrava entre trabalhos, entre muitos trabalhos, alguns gostei, outros gostei mais, outros gostei menos, e a Porta Premium encaixava nas minhas folgas, nas minhas tardes livres, nas semanas em que eu consegui guardar um bocado dinheiro e ali estava mais folgada. E trabalhar assim, sinceramente eu penso: “como é que teria sido a Porta Premium se eu tivesse trabalhado em condições?” se eu tivesse dedicado 100% na fase de desenvolvimento da Porta Premium, se eu tivesse tido mais tempo na rodagem, nós filmámos tudo em 3 semanas, é muito pouco, e pronto.

MANUEL: Não, e aquilo que estás a dizer… nem precisamos de ir aos projetos piloto dos rendimentos básicos incondicionais, projetos pilotos que são feitos noutros países, com comunidades artísticas.

TOTA: Eu acho que é mais o caso de França que tem o rendimento dos profissionais intermitentes, o subsídio da intermitência. Acima de tudo, eu acho que é preciso mais condições, quer dizer, 3 semanas para 125 minutos, é surreal

MANUEL: E condições que já existem, legais e remuneratórias. O que eu disse no primeiro episódio, que se calhar o que a RTP precisa, até considerando os valores que a RTP recebe, e comparando esses valores com outros serviços públicos de rádio e televisão em países europeus e com as realidades económicas desses países, se calhar aquilo que a RTP precisa até é de mais dinheiro e de um reforço orçamental, não de reduções e de…

TOTA: Mas infelizmente parece-me que as políticas que temos hoje em dia vão, no encontro, mais de terminar com a RTP do que de dar mais financiamento, o que é uma pena. E por isso é que eu defendo muito e gosto muito de trabalhar com a RTP, porque é um serviço público e gratuito que chega a todas as pessoas e isso, não há…

MANUEL: É verdade, é verdade. Partilho da segunda parte da tua observação, de que temos que o defender e que o tornar menos imperfeito e mais perfeito.

Tota, muitíssimo obrigado por teres estado aqui.

TOTA: Obrigada por este convite.

MANUEL: Gostei muito de falar contigo.

TOTA: Também gostei de falar contigo.

MANUEL: E havemos de falar mais vezes, certamente.

TOTA: Certamente. Espero que sim. Obrigada. Beijinhos, até à próxima.

Porta Premium, criada e realizada pela Tota Alves, é uma produção Wonder Maria Filmes para a RTP. Com Gonçalo Waddington, Tânia Alves, Sónia Balacó, Mauro Hermínio, Janico Durão, Carlos Pereira e Leonor Silva, entre muitos outros. Todos os episódios estão disponíveis no RTP Play em todo o mundo. Mais uma vez, obrigado à Tota pela conversa.

Antes de acabar, uma nota em relação à grande notícia desta sexta-feira…

A Netflix anunciou um acordo para comprar a Warner Bros. por mais de 82 mil milhões de dólares, sendo que neste valor estão incluídos os estúdios da Warner, a DC, editora de banda desenhada, e a HBO e a HBO Max, e os respectivos arquivos. Isto implica, obviamente, uma separação da empresa até agora conhecida como Warner Bros. Discovery: Os canais lineares, incluindo a CNN, o Cartoon Network e a Eurosport, serão separados para outra empresa, a Discovery Global, bem como as produtoras internacionais da Warner, na qual se inclui a sucursal da Warner espanhola que opera cá em Portugal e que faz, sobretudo, concursos e reality shows.

O que se sabe até agora é pouco: Sabe-se que, para já, não muda nada: obviamente, até à finalização do negócio, a HBO Max e a Netflix continuam como plataformas separadas. E, mesmo depois da conclusão, devem continuar assim por mais algum tempo, até à (digo eu) inevitável fusão de ambas as plataformas. A Netflix compromete-se a manter a janela de lançamento dos filmes da Warner no cinema, mesmo sendo mais curta. Veremos.

Para lá das grandes dúvidas que se colocam com estas fusões — Haverá despedimentos? A HBO Max encerra? — e cuja resposta a ambas deve ser “sim”, eu tenho é duas grandes dúvidas.

Uma tem a ver com os Jogos Olímpicos na Europa. A Discovery comprou os direitos para todos os Jogos a partir de 2018, transmitiu Tóquio 2020 e, após a fusão, obviamente, os direitos passaram a estar na Warner Discovery. É um contrato atractivo para uma Netflix que tem apostado cada vez mais na transmissão de desportos em directo, mesmo sendo apenas na Europa e mesmo considerando que as próximas edições dos Jogos Olímpicos de Verão, em 2028 na costa oeste dos Estados Unidos e em 2032 em Brisbane, na Austrália, terão fusos horários pouco atractivos para os europeus. Será que este contrato transita para a Netflix? Ficará com a Discovery Global? O tempo o dirá.

A outra dúvida prende-se com a produção nacional. A HBO Max tem sido das principais apostadoras na aquisição e na distribuição de filmes e séries de produção portuguesa para a sua plataforma, mesmo que seja apenas para cumprir quotas e para as exibir em Portugal, e talvez até em Espanha — mas não muito mais do que isso, as produções portuguesas não tiveram, na HBO, a cobertura global que se desejaria. A Netflix… tem feito o exacto oposto. Algumas compras pontuais, duas — apenas duas — séries originais, e pouco mais do que isso.

Já fizeram a matemática? Poderá perder-se aqui uma plataforma que tem apostado na produção nacional, e isso devia preocupar-nos.

É também com a presença na HBO Max que a ficção nacional tem ganho palco e importância junto do público português. Neste momento, a HBO Max tem pelo menos 30 longas-metragens e 8 séries de produção nacional em exibição. Pelo menos estas 38, porque a HBO Max não facilita a pesquisa como a Netflix — que tem 15 obras nacionais, menos de metade, nas quais se incluem algumas curtas e não apenas um, mas dois documentários diferentes sobre a vitória do Desportivo das Aves na Taça de Portugal de 2018. (Não estou a brincar, chamam-se Taça de Portugal: Os Vencedores Improváveis e Um Dia de Futebol. Também estive lá nesse dia. Mas não fiquei tão feliz. Adiante.)

Se eu estivesse numa produtora nacional, eu ficaria preocupado e começava a tentar perceber o que isto poderá implicar. Uma perda de posição negocial com a Prime Video, da Amazon, que tem feito uma aposta paralela à da HBO Max? Uma maior presença da Disney+, que começou este ano a apostar na ficção? Só o tempo o dirá. Mas eu fico preocupado.

Depois deste fim deprimente, nada melhor do que ir ver a Porta Premium e rir para não chorar. E, depois, chorar. E não se esqueçam de subscrever o Já a Seguir na vossa plataforma preferida de podcasts.

Apresentação, produção, edição, montagem, mudança de pneus, e sonoplastia feitos por mim, Manuel Reis.

Eu espero poder voltar para a semana. Bebam água, mantenham-se hidratados. Até à próxima!

Imagem de capa: Wonder Maria Filmes/RTP
Música: Upbeat Funky Loop — ispeakwaves (CC-BY)


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