No segundo episódio de estreia do Já a Seguir, Manuel Reis conversa com Márcio Laranjeira, criador da série Casa-Abrigo, e sobre os diferentes temas abordados ao longo dos seis capítulos.

A série pode ser vista no RTP Play.

Imagem de capa: Fado Filmes/RTP

Música: Upbeat Funky Loop — ispeakwaves (CC-BY)

Transcrição

Olá a todos! Eu sou o Manuel Reis, estão a ouvir o Já a Seguir, e presumo que também tenham passado pela experiência do primeiro episódio.

As primeiras reviews já chegaram, as vozes na minha cabeça disseram-me que não correu mal, há coisas a melhorar, sobretudo o facto de ter durado mais de uma hora, com vários falantes, transcrições, traduções, e tudo o que isso implicou.

Não se preocupem, este não vai durar tanto.

Vamos à vaca fria, como se costuma dizer:

O meu convidado deste segundo episódio criou um dos grandes projectos televisivos do ano, que tem sido um sucesso desde a estreia.

Falo de Casa-Abrigo, uma série que retrata uma residência para mulheres vítimas de violência doméstica.

A série já tinha estreado no Séries em Série, um evento da RTP em que foram apresentados vários projectos audiovisuais e, desde aí, teve um percurso algo atribulado até estrear em Outubro, tanto na RTP1, com um episódio semanal, como na RTP Play, com todos os episódios disponíveis para um bingewatch.

Não vos vou mentir: é uma série com um tema pesado, difícil, mas se não é para estas séries que serve o nosso serviço público, para que servirá?

Sem mais demoras, a conversa com o criador da série.

MANUEL: Márcio, muito obrigado por estares aqui comigo e connosco, de certa forma, a batizar isto, este projeto, obrigado por teres aceite o convite.

Eu queria-te perguntar como é que tens vivido este sucesso da série. a série está — nós estamos a gravar a 18 de novembro, ontem passou o quarto episódio na RTP1 — a série está na íntegra na RTP Play desde a sua estreia, praticamente sempre no primeiro lugar, desde a estreia, no primeiro lugar da RTP Play, como é que tem sido isto para ti?

MÁRCIO: Acho que tenho vivido isto assim com alguma comoção, na verdade, porque foi um projeto muito querido e sensível. Era difícil fazê-lo, da maneira que queria que ele fosse feito e era preciso ter uma grande confiança da parte de toda a gente, isso acabou por acontecer.

Mas, de alguma maneira, eu acho que me preparei para a internet, já que estamos a falar da RTP Play, porque sei como as pessoas conseguem ser más, lá na internet, por vezes, nos comentários que fazem as coisas. E ao mesmo tempo, eu também sabia que, visitei casas abrigo e sabia que uma não é igual a outra, ou seja, estive em casas onde as pessoas se queixavam muito do sítio onde estavam, não foi exatamente isso … E eu fiz uma casa diferente das outras, não há duas iguais. Então acho que me preparei para críticas bastantes duras, mas sinto que as pessoas estão a agarrar muito mais àquilo que reconhecem do que àquilo que não reconhecem, e está a ser um processo muito bonito, e parece-me também importante para quem está a ver.

MANUEL: Não me parece que exista grande espaço neste projeto para críticas muito duras, nota-se ali o coração com que tu e todos os intervenientes fizeram este projeto, há ali muita sensibilidade nisso, porque é que ficaste com essa sensação de que…?

MÁRCIO: Porque por vezes eu vejo isso, ou seja, vejo isso em projetos…

MANUEL: Tu já fizeste vários outros projetos, como assistente sobretudo, além de alguns projetos próprios, esta é a tua primeira série, estou só aqui a dar algum contexto também às pessoas, mas muito sinceramente não me parece ser o resultado final, pelo menos não me demonstra que seja… Que abra muito espaço para essas críticas.

MÁRCIO: Eu sempre achei que havia espaço, a internet tem espaço, tem sempre espaço, não é?

Portanto, de alguma forma também preparei o terreno… Eu lembro-me de ter visto a montagem final, já depois de termos trabalhado nela há algum tempo, e vi com a Vanessa, que esteve a montar, a montadora, e disse-lhe: “eu gosto muito disto, é isto que eu quero mostrar, e agora pronto, estou preparado para tudo, sei que é isto.”

MANUEL: Quando é que vocês terminaram a montagem dos episódios?

MÁRCIO: Terminámos… terminámos no ano passado.

MANUEL: Ok.

MÁRCIO: Sim, terminámos no ano passado.

MANUEL: Portanto, quando a série estreia em fevereiro no Séries em Série já tinham os seis episódios prontos?

MÁRCIO: Já tínhamos os seis episódios prontos, ok.

MANUEL: Eu lembro-me de ter ido ao… De ter visto o primeiro episódio no Séries em Série e de ter ficado logo na listinha, ter metido logo o asterisco de “esta vai ficar aqui para o futuro”, depois dá-se também a estreia no Indielisboa, que certamente também alimentou o alento de que o resultado tinha sido positivo.

MÁRCIO: Sim, não houve um futuro imediato da altura. E também, como sabemos, houve… A série também acabou por… Ela não sofreu um total mediatismo com a questão do Carloto, mas, porque a série ainda não era sequer mediática, mas passou um bocadinho por isso.

Na altura o Correio da Manhã apresenta a notícia de…

MANUEL: sempre o Correio da Manhã.

MÁRCIO: Que o Carlotto é “protagonista da série Casa Abrigo”, antes dela ter estreado, e que faz o papel de [imperceptível] de mulheres.

MANUEL: Com todo o respeito pelo trabalho do Correio da Manhã e de quem acompanhou o caso do Carloto Cotta, nós estamos a gravar também no dia seguinte à sentença, em primeira instância, que efetivamente não houve, foi absolvido de todas as acusações, ainda poderá existir recurso.

Com todo o respeito pelo Correio da Manhã, se calhar, quem devia ter escrito sobre isto, devia ter sido alguém que tivesse mesmo visto o episódio, ou visto algum tipo de material sobre a série, para perceber que ele não era o protagonista.

É um personagem secundário, importante, mas não é propriamente… o foco não é ele.

MÁRCIO: Sim, essa também foi uma das questões importantes quando a série foi para o Indielisboa.

Ou seja, achei na altura que podia ser um momento de se mostrar a série, em vez de deixar na gaveta com risco de cancelamento, para que quem visse a série, e aí sim, outros críticos de outros jornais, pudessem também ver a série e criticá-la, como é o seu trabalho. E então aquilo que aconteceu, efetivamente, foi que criticaram a série por aquilo que a série é, não pela presença do Carloto. E então eu juntei esses artigos todos para enviar para a RTP, para mostrar que não corríamos tanto esse risco com quem visse a série, sabia que isso ia acontecer.

Por outro lado, também achei que para quem quisesse muito discutir as questões de cancelamento, não deixava de se levantar uma questão interessante, que era, até que ponto é que um potencial agressor deveria cancelar as testemunhas de vítimas numa série destas. Ou seja, efetivamente aqui havia um debate que se lançava.

MANUEL: Sim, sim, sim. Sendo esta série também necessariamente sobre isso, sobre até o cancelamento da presença pública destas vítimas retratadas na série, o cancelamento da existência da vítimas que são retratadas na série, até que ponto é que a existência de um alegado agressor poderia ser, pode afectar…

É que eu brinco e digo, “calhou…” não é bem, é mal, neste caso. Calhou ser assim.

Mas indo ao resto do elenco, temos aqui 5 performances absolutamente incríveis.

Eu quero obviamente destacar a Filomena Gigante, porque eu raramente a tinha visto, e é uma dificuldade que temos cá em Portugal muitas vezes com o fechamento que existe sobre Lisboa e sobre quem está em Lisboa, quem vive em Lisboa.

E felizmente também com projetos de RTP temos visto cada vez mais atores de outras regiões, com produções gravadas noutras regiões.

Aqui não é o caso necessariamente aqui com a Filomena Gigante, que é uma mulher do norte, claramente do norte.

Aliás, o episódio que passou ontem [quarto episódio] mostra como ela usa os palavrões como vírgulas e como momentos de aprendizagem, que é uma cena muito, muito, muito boa, muito engraçada.

MÁRCIO: Pediram-me… perguntaram-me se eu podia cortar essa cena.

MANUEL: Não, não, não, aquela cena não se corta! Uma cena daquelas não se corta!

Foi exatamente o que eu respondi, que não podia cortar essa cena

MANUEL: Não, não! Porque é que eles continuam com isto? Porque é que continuam com isto em Portugal? Não, não se corta!

MÁRCIO: Foi exatamente isso, ou seja, foi a única cena que me perguntaram se eu podia cortar.

MANUEL: É incrível, pá. É uma cena incrível.

Como é que… não é bem como é que descobres, porque as pessoas têm o trabalho e uma pessoa conhece outra, outra pessoa conhece outra, como é que efetivamente dizes “esta pessoa é a pessoa perfeita para este papel?”

MÁRCIO: Eu fiz um casting, fui à procura deste dos personagens.

Não foi igual para todas as protagonistas.

MANUEL: Já estava mais ou menos definidos alguns traços daquilo que querias de cada uma?

MÁRCIO: Sim, como eu escrevi, de alguma maneira eu tinha bem desenhadas as personagens.

E havia atrizes como, por exemplo, no caso da Rita Cabaço eu fui convidá-la para fazer a Gabriela. Embora no caso dela eu nem sequer conseguia ver como é que ela seria a Gabriela.

Eu queria que ela fosse enquanto atriz a pessoa que ia trabalhar essa personagem, porque acho a Rita Cabaço uma grande atriz com essa capacidade.

MANUEL: Verdade.

MÁRCIO: Mas no caso da, no caso da Conceição fiz um casting à procura desta mulher, desta mulher que ia representar tantas mulheres deste país.

E eu lembro na altura de me terem dito na produção, para não ir procurar protagonistas ao norte, não é? Porquê? Porque há uma razão para isso. Elas saem mais caras, basicamente.

Nós [estando] a filmar lá não, não é? Mas filmando cá, que era o caso, não é nada barato.

MANUEL: Vila Franca de Xira, e ali no Oeste…

MÁRCIO: É preciso pagar o alojamento, é preciso pagar os transportes, pronto.

Então… Mas eu fui na mesma. Fui na mesma, porque procurai Conceições por todo lado.

E quando foi com a Filomena Gigante, nós basicamente aquilo que íamos fazer era ler uma cena, era o que eu estava a fazer com as outras atrizes, lemos uma cena e conversávamos, com a Filomena Gigante acabámos por ficar a ler todas as cenas da Conceição. Ficámos ali naquela cave durante horas. E tive a certeza na altura que seria… Aliás, acho que qualquer pessoa que veja a Filomena fazer esta personagem sabe que não podia ser outra pessoa. Parece que foi escrito para ela.

MANUEL: Eu vejo e fico… por algum motivo é que a destaco de todo o elenco. Não só porque acaba por ser uma cara não necessariamente nova, mas nova no sentido de estar em evidência, como sendo menos conhecida, menos mediática em relação às outras, mas porque, de facto, o papel cabe-lhe que nem uma luva.

MÁRCIO: Sim, eu cheguei a ter de confirmar nos meus guiões se eu tinha escrito o que ela estava a dizer, porque parecia-me que era dela e não o meu.

MANUEL: Houve muito improviso ou nem por isso?

MÁRCIO: Não, não, a Filomena diz virgula por virgula. Ela é, a Filomena é muito, muito fiel ao texto. Não há assim, não há muito improviso não. Ou seja, há muito improviso emocional.

MANUEL: Em que sentido?

MÁRCIO: No sentido em que eu não procuro duas takes iguais, ou seja, na forma como as personagens reagem umas às outras. Mas são muitos fiéis ao texto, sim.

MANUEL: Ok. Há aqui vários, vários temas que são explorados ao longo dos episódios. Alguns que se calhar, tal como as personagens, porque para quem ainda não viu, cada episódio é mais focado, não totalmente, mas mais focado em cada uma das habitantes da casa e também na psicóloga que trabalha com elas. Já agora, como é que decidiste a ordem dos episódios? Foi algo que surgiu naturalmente ou…?

MÁRCIO: Foi surgindo no arco narrativo. Ou seja, o primeiro eu queria que fosse sobre alguém que entra na casa. Que é para nós, obviamente, entrarmos na casa e descobriremos a casa com essa pessoa. Por outro lado, também achei que seria interessante trocar as voltas e não ser sobre uma pessoa da mesma classe social das outras pessoas da casa, ou seja, aquilo que seria o mais óbvio, nem alguém que lhe tivesse batido.

Depois, o segundo episódio, eu quis que fosse sobre a Madalena, porque é um episódio sobre alguém que vai visitar. E ao mesmo tempo também a Madalena parece que não consegue ficar com o episódio dela feito. O episódio é-lhe retirado de alguma forma. Não lhe acontece. Como acontece a ver que no final atira a Chaves ou a Madalena, o episódio não lhe acontece. O arco da Madalena vai acontecer depois. Há de acontecer agora no sexto episódio.

E depois decidi que, a meio, queria pôr a Joana, queria interromper aquilo para nós percebemos porque é que não andávamos a ver a Joana com elas. Porque a Joana está muito ocupada com as outras, as mulheres temporárias, e depois sabia que tinha este alinhamento, a Conceição pelo que vimos ontem, e agora não vou contar porque…

MANUEL: A seguir a Gabriela, porque pronto, são cinco.

MÁRCIO: E depois o último é sobre a casa, no final.

MANUEL: Sim, eu já vi os seis, estão todos na RTP Play, claro, mas estás a focar-te na transmissão linear da semana a semana, estás a fazer a coisa à antiga.

MÁRCIO: Não, e na verdade, porque a forma como eu também escrevi, aquilo passa-se mais ou menos uma semana de episódio para episódio.

MANUEL: Ok, ok.

MÁRCIO: Ou seja, não tem um tempo descrito, mas dá um bocadinho essa sensação de avanço.

MANUEL: Acho que dá uma noção do tempo, sobretudo no último episódio, quando acontece o que acontece no último episódio, sente-se que passou algum tempo, não necessariamente muito tempo. Não é?

MÁRCIO: Eu ontem estava a ver com pessoas amigas que me disseram que no episódio da Conceição, que era curioso como de repente já estavam as… e não era de repente, mas as relações naquele episódio já estavam muito mais estabelecidas, as relações entre elas.

MANUEL: Sim, sim.

MÁRCIO: Portanto sim, vai acontecendo, mas porque aquilo não são seis dias, de facto.

MANUEL: Mas, voltando àquilo que estava a perguntar antes de fazermos este desvio para a ordem, estamos a falar aqui de vários tópicos, alguns isolados num episódio específico da personagem, alguns mais abrangentes, trauma geracional por exemplo, e vê-se isso muito no episódio da Madalena, naquela cena, naquele diálogo entre o Leonor Silveira e o João Nunes Monteiro, que é formidável, absolutamente formidável.

Vemos também se calhar algumas… no episódio da Gabriela, que é o que vai passar quando estamos a gravar, na próxima segunda; quando estiverem a ouvir isto, é o quinto episódio.

Também se nota ali algum namoro com a solidão, e como a solidão afeta, de certa forma, como pensamos sobre nós, com toda a carga em cima, e ao longo da série, de certa forma, vemos também pedaços da família da Gabriela, [do] meio em que ela cresceu, e como é que isso acaba por afetar.

MÁRCIO: É engraçado que digas isso, porque agora falas do café… Ou seja, há cenas que tu recolhes, como aquela da Conceição também, a que pediram para cortar. Agora, esta que anuncias do café, lembra-me também que, quando eu fui para a escola de cinema, uma das primeiras coisas que nos disseram, que tínhamos de fazer um exercício com dois atores num espaço, o nosso primeiro exercício, então disseram “vocês vão ter a tendência de pôr em duas pessoas sentadas numa mesa de café a falar, nunca façam isso.”

E então eu lembrei-me, depois de ter escrito o segundo episódio, que tinha não só, porque nem era para cinema, era para televisão, duas cenas gigantescas de dois atores, de facto, sentados no café a falar, e depois quando estava a filmar, não queria sequer muitos planos, mais do que o de ali dela.

MANUEL: Desculpa, só uma dúvida, o que é que andam a ensinar na Escola Superior de Teatro e Cínema? Porque alguns dos melhores exercícios que tivemos nos últimos anos são de duas pessoas a falar à mesa, ou até só sentadas numa sala durante um episódio inteiro.

MÁRCIO: Eu também me lembrei disso, de algumas vezes, porque é verdade. Mas, pronto, as duas coisas não deixam de ser curiosas.

MANUEL: Mas voltando…

MÁRCIO: Mas sim, é verdade que a questão geracional, eu acho que sempre me acompanhou, eu queria falar sobre ela. Ou seja, foi uma coisa que também percebi, tanto nas curtas que fiz, como no meu filme, na longa que fiz, é um tema muito presente. E aqui, na Casa-Abrigo, não podia deixar de ser, porque toca-me sempre todos os dias. Ou seja, a forma como nós temos uma espécie de fosso entre uma coisa e a outra, e ao mesmo tempo sinto que é um fosso no qual podemos, ou devemos estender para dar as mãos, esta é a minha ideia cristã.

MANUEL: É algo que carregamos. É uma cruz que carregamos.

MÁRCIO: É uma cruz que carregamos, é bem dito. Eu sinto mesmo que… é muito bem dito, é uma cruz que carregamos. E não consigo deixar de tocar nesse tema.

E teres dito também a solidão da Gabriela, também é muito bem empenhado, porque é exactamente isso que eu sinto em relação à Gabriela.

A Gabriela… são muitas capas, daí eu dizer que não é muito fácil fazer aquela personagem, porque ela nunca… ao contrário de Vera, que no segundo episódio já nos está a dizer, ela sabe pôr palavras o que é que se passa com ela, a Gabriela não faz, ela nunca o faz, nunca diz o que é que se passa com ela, não vai verbalizar, nem todas as pessoas verbalizam o seu trauma, principalmente com determinadas condições sociais. E a Gabriela mostra-se exatamente o oposto daquilo, ela brilha na casa, e a casa para ela é o oposto dessa solidão. E depois, quando ela vai ao encontro do seu trauma, digamos, aí essa solidão vem ao de cima.

MANUEL: Acho que é neste episódio que vemos a primeira, se calhar, brecha, não é necessariamente a primeira brecha na Gabriela, nós vamos vendo algumas situações em que o trauma dela é exposto ao longo dos episódios, logo no primeiro episódio, aquela conversa que ela tem com a Vera quando estão na rua e falam entre elas, já mostra alguma coisa. Mas neste episódio temos uma cena com a Sofia Espírito Santo, que faz de mãe dela, a ir ao cabeleireiro e vemos a Gabriela a explodir por completo, e aí é que se começa a ter uma noção da carga.

MÁRCIO: Sim, porque aí o espaço que ela estava tão a construir à sua maneira, e ao mesmo tempo também em negação, de repente é invadido pela mãe, pela família, portanto, por aquilo que ela também está a negar. E isso… ela não aguenta, e rebenta precisamente pela ação em que vive. Portanto nós percebemos, acho que vamos percebendo como estes personagens vivem de formas tão diferentes também a violência que carregam.

MANUEL: É um excelente objeto de serviço público, eu não me estou a lembrar de mais nenhuma obra de ficção, à exceção de uma outra novela que inclui violência doméstica nas suas histórias, não necessariamente da melhor forma, mas às vezes de uma forma mais direta e óbvia para também expor isso às pessoas, ao seu público, expor essas situações, mas aqui é uma excelente obra de serviço público que aqui tens. Como é que tens sido- há bocado perguntei-te sobre a recepção do público. tens tido algum tipo de recepção de vítimas de violência doméstica, pessoas que estão em casas abrigo, de terapeutas, assistentes sociais, como é que tem sido?

MÁRCIO: Tenho, e essa tem sido também das grandes, grandes surpresas, porque são pessoas que estão muito gratas… Ainda não recebi uma má mensagem ,daí também, pronto, imagino que às vezes seja mais difícil para uma pessoa enviar uma má mensagem, pelo menos quando é diretamente, mas tem… pessoas que eu não conheço, têm enviado mensagens, pessoas que tiveram em casas de abrigo ou que passaram por estas situações, e que para elas está a ser muito importante sentirem que têm uma existência, digamos, porque aquilo que acontece é que estas pessoas… normalmente fala-se de violência doméstica bastante até e na televisão fala-se muito.

MANUEL: Mas fala-se no final do processo, fala-se quando a pessoa morre, quando a pessoa é morta, dos dados

MÁRCIO: Sim, ou da violência, e a violência é um ato do agressor, ou seja, quem está a protagonizar isso não são elas, eu estou aqui a pôr “elas” porque o número é incomparável, porque ainda estamos a falar disso. E aquilo que acontece, principalmente para mulheres que vão para casas de abrigo, é que vão se aportar em situações mais extremas, então para elas conseguirem sair daquilo que não é o ato delas, não é, mas deles, já é tão difícil e quando ganham o controlo sobre a vida delas, quando finalmente vão ter algum protagonismo sobre a sua própria vida, vão para um sítio totalmente longe da vida delas, para um sítio onde têm de ser anónimas, e têm vergonha disso, têm mesmo vergonha, elas não saem das casas de abrigo para dizer a toda a gente que vive numa casa de abrigo, então…

MANUEL: É a sua existência, lá está, é a sua existência que elas têm causa, sim.

MÁRCIO: E aqui elas sentem que há alguma existência e dignidade também devolvida. Porque as personagens também estão filmadas com dignidade, isso foi algo que queria desde o início e acho que é conseguido, sim.

MANUEL: O nosso tempo está a terminar, quero-te agradecer por teres passado por esta experiência aqui comigo, esta em particular, espero que não tenha sido muito tortuosa. O que é que tens para o futuro, projetos para o futuro ou que já estejam a andar? Novas séries, novos filmes?

MÁRCIO: Estou a escrever um filme, sim, e uma peça de teatro também, que é baseada numa família de operários. Sim, também são pessoas que não estão… há um tipo de pessoas que eu também sinto que não têm muita representatividade, não são os pobres, são aquelas pessoas nas quais não vemos muita literatura, não vemos muito cinema, não vemos muito teatro, são… pronto, é baseado numa família dessas, e que também precisam de ter alguma existência, aliás, estão a começar a ter naquilo que votam, pelo menos.

MANUEL: Eu nisso concordo, acho que muitas vezes o que falta é o que falta à ficção… Uma das minhas grandes críticas à RTP é muitas vezes focarem-se tanto em droga e crimes, e nas co-produções com a Espanha vemos isso muito frequentemente, e eu percebo que seja o que vende mas, ao mesmo tempo, precisamos de mais. Precisamos da realidade das pessoas, seja cómica, seja dramática, precisamos de coisas mais reais, não é?

MÁRCIO: Sim, eu acho que pelo menos com a Casa Abrigo, que não há, de facto, não há nada disso, e não é que eu tenha questões diretas com isso, mas não é proposta da série. Pelo menos uma coisa é importante e acho que pode abrir um precedente, espero, é que não é por não haver sexo, suicídio, drogas, violência gráfica, seja o que for, que as pessoas não veem a série, portanto, é possível fazer-se mais objectos destes.

MANUEL: Sim, completamente. Márcio, mais uma vez, muito obrigado, parabéns pela série, pelo trabalho e isto tendo, obviamente, através de ti, estendo os parabéns a toda a equipa, muito bom trabalho, este é daqueles que se devem orgulhar.

MÁRCIO: Obrigado, obrigado por isto, fico muito feliz.

À data de lançamento desta emissão, todos os episódios de Casa-Abrigo estão disponíveis na RTP Play e o último episódio passa esta segunda-feira, dia 1 de Dezembro, na RTP1. Mais uma vez obrigado ao Márcio pela disponibilidade e parabéns a toda a equipa da série.

Está feito por hoje, e por esta estreia dupla. Volto daqui a uma semana com um novo episódio, só um!, nos moldes deste.

Apresentação, produção, edição, montagem, enchimento de garrafas, e sonoplastia feitos por mim, Manuel Reis.

Bebam muita água! Até à próxima.


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