A estreia do Já a Seguir conta com Manuel Reis a pôr a conversa em dia, a destacar alguns projectos televisivos que passaram ao longo do ano, as respostas de Giancarlo Esposito, Meg Ryan e Piper Perabo na sua visita ao Tribeca Lisboa, e ainda uma conversa com António Ferreira, realizador do filme A Memória do Cheiro das Coisas.

Imagem de capa: Manuel Reis / SIC – Tribeca Lisboa / Persona Non Grata Pictures

Música: ispeakwaves (CC-BY)

Transcrição

Já a seguir…

Estou de volta! E tenho umas coisas para dizer.

Faço um pequeno resumo do que ficou para trás nestes meses e sobre o qual não falei…

Partilho alguma da minha experiência no Tribeca Lisboa, com alguns clips das conferências de imprensa…

e falo com o António Ferreira, realizador de A Memória do Cheiro das Coisas

<música>

Olá! Há algum tempo que não fazia isto, uns 10 meses. Há crianças que foram feitas quando parei com o programa que fazia na rádio e que agora estão a causar-vos insónias, e sei de quem as tenha feito. Peço desculpa se eu era o vosso contraceptivo.

Antes que isto fique ainda mais estranho, e para quem não me conhece mas viu um gajo que não sabe posar para uma fotografia e decidiu “sim, vou ouvir isto”, ou mesmo para quem me conhece, cá vai uma introdução rápida:

Olá, o meu nome é Manuel Reis e, entre blogs, podcasts e rádio, falo sobre televisão e cinema desde 2006.

Fiz o Podcast TV Dependente, no blog com o mesmo nome, até 2015.

Depois disso fiz dois podcasts sobre duas séries da HBO: A Cabeça do Ned, sobre Game of Thrones, e As Vozes da Dolores, sobre Westworld.

Fiz watchparties para Game of Thrones, com gravações ao vivo do podcast, e para o final de Pôr do Sol, com 9 salas de cinemas cheias.

E desde 2019 que falava de cultura pop em língua portuguesa na Epopeia, uma rubrica, e podcast, na RDP Internacional.

Falava. Porque decidi terminar com o programa no início do ano.

Não posso dizer que a Epopeia tenha terminado da forma como eu gostaria mas, por vezes, é preciso tomar estas decisões.

Antes de ir à parte chata, porque há uma parte chata que preciso de pôr cá fora, tenho que agradecer a várias pessoas.

A começar pelo João Bacalhau, que abriu a porta da RDP Internacional, e me apresentou à Carina Jorge, com quem o entendimento foi imediato desde o primeiro segundo e durante estes anos todos.

Junto-lhes a incrível Andreia Rocha e o não menos espectacular João Pedro Bandeira, que me aturaram quando os outros estavam de merecidas férias.

Agradeço também ao João Barreiros pela liberdade total que tive para fazer a rubrica.

A única condição que me era imposta era limitar-me ao tema, obviamente, mas podia falar do que quisesse, houvesse ou não envolvimento da RTP — e não o teria feito de outra forma.

E estendo um abraço a toda a equipa da RDP Internacional, aos que por lá passaram e aos que ainda lá estão, que faz os possíveis para levar Portugal aos portugueses em todo o mundo, com informação relevante para as suas vidas.

As emissões internacionais da RDP, rádio, como da RTP, televisão, devem existir como serviços autónomos e focados em servir os emigrantes e as comunidades portuguesas de forma prática e útil.

Agradeço também a todos os argumentistas, produtores, realizadores e actores que passaram pelas conversas na Epopeia, e a todos os promotores, agentes e pessoal de relações públicas e às pessoas que conhecem outras pessoas e que facilitaram pontes com quem consegui levar ao programa.

Espero que continuemos a fazer essas pontes nos próximos tempos, agora por aqui.

Estendo este agradecimento também a quem me deu palavras de encorajamento, tanto aos que o fizeram durante a produção do programa como a quem as deu depois disso, sabendo ou não da situação.

Por fim, mas nunca esquecidos, aos ouvintes.

Aos que não diziam nada e aos que diziam, aos que deram palavras de força e encorajamento e também à senhora que fez a única queixa que recebi, que eu saiba sobre o excesso de utilização, da minha parte, de palavras estrangeiras (e à qual dou razão, até certo ponto).

Agora vem a tal parte chata.

(E aproveito já para dizer: se quiserem passar à frente e se a vossa aplicação de podcasts os suportar, este podcast tem capítulos e podem ir directamente para a parte que vos interessa. Os tempos estão indicados na descrição.)

Terminei a Epopeia porque fui, muito simplesmente, desconsiderado, desrespeitado e desvalorizado. Não vou entrar em detalhes aqui. Quem tinha mesmo de saber os motivos, sabe-os. Se calhar eu também devia ter batido o pé mais cedo.

Não foi uma decisão súbita (mesmo que o final do programa possa ter sido abrupto e sem aviso), pelo contrário; foi bastante ponderada e com algumas semanas de aviso, fora várias outras abordagens feitas ao longo dos cinco anos em que produzi o programa.

E se quiserem associar isto a qualquer motivação política, à recente mudança de directores, ou a outras mudanças que possam ter acontecido, não teve nada a ver: foi vários meses antes disso acontecer.

Depois de uma altura em que se falou muito sobre o futuro da RTP, à boleia do novo contrato de concessão, ou que se põe em causa se programa A, ou B cumprem o âmbito de serviço público, seria muito mais importante se a própria RTP fizesse uma reflexão sobre a sua cultura de funcionamento e da forma como tratam e valorizam os seus trabalhadores, desde os funcionários a tempo inteiro aos colaboradores pontuais, com mais visibilidade ou menos, seja numa transmissão televisiva da RTP1 ou numa antena digital da RDP.

Estas não são conversas que se têm apenas num dia, nem numa semana, e certamente que demorariam o seu tempo se fossem feitas e tidas em boa fé para mudar alguma coisa.

No entanto, quero deixar algo claro: essas conversas teriam sempre de existir dentro do pressuposto que é o da manutenção de uma RTP pública, do Estado, que garanta um Serviço Público de Rádio e Televisão, e que continua a promover esse serviço público nas várias vertentes em que já o promove.

Até digo mais: considerando que a RTP é um dos operadores de serviço público europeus com o menor financiamento público per capita, e sobretudo quando pomos esse financiamento ao lado do que é feito por países com economias comparáveis à nossa, a RTP até precisa de ser reforçada, e não desmantelada, à boleia dos facilitismos tecnológicos da moda ou de uma obsessão pouco saudável de privatizar por privatizar.

Mas esta é a minha opinião.

Ora, isto já dá pistas para a pergunta que aí vem: o que será o Já a Seguir?

Para já, será o que era a Epopeia. Alguma cultura pop em língua portuguesa. Eu quero fazer mais, e não implica que não o faça. Quero ter a porta aberta para falar de outros assuntos, sempre nesta intersecção dos media e da cultura. Séries? Obviamente. Filmes? Certamente. Videojogos, podcasts? Se eu achar que se justifica, claro. Até wrestling.

Como fazia na Epopeia: se eu entender que existe qualidade num trabalho ou um ponto de conversa positivo, quererei trazer a conversa para aqui. E tentarei fazer com que vocês se sintam incluídos na conversa

Há várias coisas que não sei: duração dos episódios. Essa poderá ser mais flexível, a Epopeia já era bastante flexível quando se justificava.

Não sei o dia em que sairão os novos episódios, e o ritmo a que sairão. Para já, às sextas, por vários motivos. Um dos quais é que há comunicações feitas à quinta-feira à tarde, e assim ainda as apanho — algo que não costumava acontecer com a Epopeia.

Não sei se/quando publico isto em vídeo. Editar apenas áudio é mais simples.

Por existirem estas questões todas, insisto: vou começar com o que sei, o que fazia, devagar, e construir a partir daí.

Posto isto, é preciso ver o que é que ficou para trás. E aqui vou-me focar apenas nas séries de televisão, algumas que passaram e passaram despercebidas ou pelo menos pouco percebidas.

A RTP continua a fazer a sua aposta em ser a principal força da ficção em Portugal (que não telenovelas), continua a apoiar diversos filmes, continua a ter séries, não só séries na RTP1, mas também séries exclusivas no RTP Play, que já vão para lá dos projetos do RTP Lab e, já agora a RTP abriu agora uma janela na RTP1 para transmissão de projetos do RTP Lab, que muito merecem esse espaço também, há ali séries incríveis.

O Astromano foi, para muitos críticos, uma das grandes séries do ano passado, e é um projeto RTP Lab, é um projeto feito com um baixíssimo orçamento e muito amor e muita vontade, e há uma conversa que tive com o Pedro e o Filipe, os criadores da série, na Epopeia, no ano passado, que podem ir ouvir também na RTP Play.

A TVI tem feito uma aposta crescente nas séries, algumas com apoio que vai muito para lá dos 50%, efectiva comparticipação, da Prime Video, da Amazon. Uma delas foi O Arquiteto, uma série que causou muita polémica quando foi anunciada, mas que tinha, muito sinceramente, bons sinais em relação às pessoas que estavam envolvidas.

É uma série escrita pela Patrícia Müller, que normalmente gosta de dar às mulheres um ponto de vista muito firme, gosta de contar as histórias do ponto de vista das mulheres.

A série também contava com o Rui Melo, que não é uma pessoa que se envolve em projetos que vangloriam uma pessoa como o Tomás Taveira, e a série também mudou o seu âmbito, deixou de ser uma série sobre Tomás Taveira para ser uma série que é uma obra de ficção, e qualquer semelhança com a realidade era pura coincidência, passou a ser sobre o arquiteto Tomé Serpa, que não tem nada a ver, e passou a ser sobre um centro comercial em Lisboa que tem três torres de utilização mista, que não tem nada a ver com o centro comercial das Amoreiras.

Fora isso, o elenco é incrível. Para lá do Rui Melo, temos também Maria João Pinho, a Teresa Tavares e a Paula Lobo Antunes à cabeça, e tem um apoio da APAV que eu muito sinceramente questiono, e isso foi o pormenor com que eu fiquei da série… Numa série que confunde tanto realidade com ficção, apesar da declaração no início, nós sabemos exatamente sobre quem é que é a série e sobre quem é a série, ok? Vá lá. Nós sabemos sobre o que é que é, não nos tomem por parvos.

Há vários momentos na série em que falam da fundação da APAV, falam da função dela, no final de cada episódio há um cartão com os contactos da APAV, com a Linha de Apoio à Vítima, e acho muito bem que o façam, é preciso por estes assuntos na ordem do dia, é preciso se calhar contar a história a partir da perspectiva das pessoas que foram afectadas… No entanto, há um momento na série (isto são spoilers, é a vida), em que é feito um desfalque ao escritório do arquitecto e, de repente, a APAV, na série, não na vida real, não sei, mas não na vida real, recebe um grande donativo de dinheiro.

Eu aí questiono como é que a APAV se sente confortável com uma história destas e fico a matutar, e fico a pensar, e um dia gostava de ter aqui a Patrícia Müller para falarmos sobre isso, porque… não sei, eu se estivesse na APAV, aquilo não me caia bem, se fizesse parte da associação aquilo não me caia bem, e não acho que tenha sido um bom pormenor.

A série está bastante acima do ok, acho que ficou bastante acima das minhas expectativas, como já disse o elenco faz um excelente trabalho, o Rui Melo, noutros países, seria nomeado para um Emmy, há uma cena no último vídeo que é profundamente aterradora e que é cena de prémio para para o Rui Melo, merecia todos os Emmys.

A Maria João Pinho e a Teresa Tavares e a Paula Lobo Antunes também mereciam ser consideradas, se calhar até, das três, até destaco mais a Paula Lobo Antunes que também faz um papelão nesta série, o elenco está absolutamente de parabéns.

Outra série que estreou na TV durante o ano, foi mais ou menos durante o 25 de Abril, chama-se Mulheres às Armas, é uma série que tem o desenvolvimento da Patrícia Sequeira, que esteve no projeto das Doce, fez o Erro 404, tem a Vitória Guerra, a Sara Carinhas, a Sílvia Chiola, Madalena Almeida, excelente elenco também.

No entanto, é uma série que teve dois grandes… já agora, é uma série passada numa fábrica de têxteis, não é só passada lá, mas sobretudo numa fábrica de têxteis que fazia as fardas para os militares que estavam na guerra colonial.

E mostra as dinâmicas da altura, dinâmicas muito interessantes, só tenho dois grandes problemas com a série.

O primeiro é que só durou três episódios e aquele final pareceu extremamente apressado.

E o segundo, e é um problema maior que eu tenho ainda, foram as experiências feitas com inteligência artificial que ficaram muito, muito, muito, muito aquém daquilo que seria aceitável numa qualquer produção, desde uma bandeira do lado errado do mastro, a um ponte 25 de Abril, um plano aéreo sobre um suposto Tejo, à boleia de uma suposta gaivota, em que passa por uma suposta Ponte 25 de Abril, que mais parece a Golden Gate, e sim, são diferentes, e há formas de distinguir as duas pontes, acho que ficou muito aquém do que seria desejável para uma série destas.

O elenco é espetacular, mas um bom elenco muitas vezes não salva a história, não salva alguns pormenores que acabam por pesar negativamente na avaliação deste projeto.

No entanto, nota-se a subida de qualidade da TVI e a aposta… Noutro dia disseram-me que a ideia da TVI é ter uma série todos os dias e depois ir mudando para uma nova temporada de uma nova série, e fazer isto todo ano, a seguir à novela, ou a seguir a duas novelas, parece uma aposta ambiciosa, arriscada, mas que pode correr muito bem, e é muito bem-vinda nesses formatos, é extremamente bem-vinda.

A RTP, em Fevereiro, apresentou um projeto que foi o Séries em Série, um evento no São Jorge, em que apresentaram vários episódios de séries que viriam a estrear ao longo do ano, algumas ainda não estrearam.

Houve uma que já estreou na HBO Max, com outro título, foi apresentada como Vitória, e entretanto estreou com o título O Grito — provavelmente a novela da SIC, que também está na Disney+, teve alguma coisa a ver com isso.

Eu, nas séries que estrearam este ano da RTP, destaco obviamente Ruído, mais um projeto experimental do Bruno Nogueira que, a meu ver, deu excelente resultado.

Destaco ainda Ponto Nemo, uma co-produção com Espanha de ficção científica e alguma fantasia. Imaginem um Lost feito à portuguesa, com a Sara Matos. É uma excelente experiência, foi renovada para uma segunda temporada, que está neste momento a ser gravada, vale a pena ver, está também na Prime Video.

E FELP, a nova do Manuel Pureza, criador de Pôr do Sol, que trouxe os fantoches para a televisão portuguesa, de volta, numa perspectiva mais adulta, a beber também inspiração daquilo que o Rui Melo fez anteriormente com a Avenida Q, com a adaptação portuguesa da Avenida Q.

FELP está na RTP Play e está também na HBO Max (vamos ver quanto tempo mais é que eles ficam com esse nome e não voltam a ser só HBO, aceitam-se apostas).

Vamos ter tempo nos próximos tempos, lá está, para falar destas produções e de outras, mas para já vou ao Tribeca, fui ao Tribeca, uma segunda edição do Tribeca que corrigiu erros do passado, que se mudou para salas de cinema, para auditórios, mais ou menos improvisados, mas definitivamente com melhores condições do que no ano passado, nomeadamente no Teatro Ibérico e no Convento do Beato.

Mesmo o Convento do Beato… Aquilo é um espaço gigantesco, profundamente aberto, mas eles conseguiram criar um auditório com boas condições, considerando o tipo de espaço que é, com boas condições acústicas.

Acabou por focar a programação muito mais nas conversas do que nos filmes, há quem diga que se calhar esse é o melhor caminho a tomar.

Eu prefiro ver filmes, discordo, e ainda vi alguns, mas primeiro, antes de ir a esses filmes, essas notas sobre os filmes, vou a alguns áudios das conferências de imprensa, vou começar pela Meg Ryan — sim, Meg Ryan — com uma pergunta que fiz, à boleia de algo que o Giancarlo Esposito disse na conferência de imprensa dele, sobre comédias românticas em papéis de uma certa idade, ou seja, pessoas nos seus 50s ou 60s, e sobre se essas comédias são comercialmente viáveis.

Daqui a pouco vamos ouvir o Giancarlo Esposito, já vão perceber porquê, mas primeiro vamos ouvir a Meg Ryan.

Antes de passar o primeiro clipe, só um pequeno ponto prévio: na RTP isto teria necessariamente de passar por uma dobragem, isso também só aconteceu uma vez, (obrigado Miguel Peixoto), aqui não tenho essa obrigação de dobrar, e também não teria ninguém para fazer. Mas isso não implica que não possa ter uma tradução, e essa tradução estará disponível na transcrição do episódio, juntamente com a transcrição do áudio original.

Vamos então ouvir a Meg Ryan.

ORIGINAL:

MEG: I think that answer always comes down to “are they commercially viable”, right?

Like, most answers to how things get green light are about that.

So it’s a constraint and it’s also a fact.

I was thinking about something you just said in the beginning of that question, but I guess if you’re asking me if I’m going to do another one- oh I know what I was going to say, hold on.

I feel like I listen to things sometimes, like listen to certain podcasts or whatever, and you just get this feeling that rom-coms are the backwater, in some way, and I really don’t feel that way.

I have so much respect for that genre and how specific it is, and how it’s such a fine line to walk.

MANUEL: It’s a art in itself.

MEG: It is, and all these different genres have different sets of audience expectations that they satisfy, and I don’t know, I’m really proud. I’ve done like 40 movies and maybe 8 of them were rom-coms, and those seem to be the ones that people remember, and I really am proud of that.

MANUEL: Sleepless [in Seattle], for example, it’s completely different from the classic rom-com.

MEG: Yeah, and that was of course Nora Ephron’s brilliance, and being able to use the genre as a way, like a social commentary. She was really of her time and of, she was also timeless.

TRADUÇÃO:

MEG: Acho que essa resposta vai sempre parar a “são comercialmente viáveis?”, certo?

A maioria das respostas sobre como as coisas recebem luz verde tem a ver com isso.

Por isso, é uma limitação e também um facto.

Estava a pensar em algo que disseste no início dessa pergunta, mas acho que se me estás a perguntar se vou fazer outra—ah, já sei o que ia dizer, espera.

Sinto que às vezes oiço coisas, certos podcasts ou assim, e fico com a sensação de que as comédias românticas são uma espécie de submundo, de categoria menor, e eu não sinto nada disso.

Tenho imenso respeito por esse género e por quão específico ele é, e por ser uma linha tão ténue de percorrer.

MANUEL: É uma arte em si.

MEG: É, e todos estes géneros diferentes têm conjuntos distintos de expectativas do público que procuram satisfazer, e não sei, tenho muito orgulho. Fiz uns 40 filmes e talvez 8 deles fossem comédias românticas, e esses parecem ser os que as pessoas recordam, e eu tenho mesmo orgulho disso.

MANUEL: O Sleepless [in Seattle], por exemplo, é completamente diferente da comédia romântica clássica.

MEG: Sim, e isso foi, claro, o génio da Nora Ephron, conseguir usar o género como uma forma de comentário social. Ela era muito do seu tempo e, ao mesmo tempo, intemporal.

Ali a meio, se não perceberam, perguntei sobre o Sleepless in Seattle, conhecido por cá como Sintonia do Amor. Filmaço.

Um filme que eu também acho muito giro, mas que foi arrasado pela crítica e pelo público quando saiu foi As Aventuras de Rocky e Bullwinkle, adaptação de 1999 da série de animação de Jay Ward, produzido pelos criadores do Tribeca, em Nova Iorque, Robert DeNiro e Jane Rosenthal. Eu aproveitei que Piper Perabo, que protagonizou esse filme, quando era muito nova, pouco antes da estreia de Coyote Ugly… eu perguntei-lhe como era ser jovem, estar a afirmar-se, ter que lidar com estas críticas e com o arrasar de que o filme foi, no meu entender, injustamente vítima, na altura.

ORIGINAL:

PIPER: There are two sides of the movie business. One is the creative process, and one is the economic side.

And in some ways, you are responsible to fulfill your creative obligation to the fullest extent, so as a way of showing your responsibility to the trust and the money that people put behind your work.

But really… and I take that very seriously, and I do my work, and I show up on time, and I show up for all my press, and I support the films and television shows that I work, and the theater. Because I believe that’s part of the responsibility of being hired as an actor. But that’s a little bit where it ends. My job is to tell the story to the best of my ability and collaborate with everyone. And what happens… I can’t control that.

And so, I was really lucky on Rocky and Bullwinkle that it’s being held by De Niro. There were so many amazing actors in that film. Carl Reiner’s in that film. Jeanine Garofalo, Whoopi Goldberg, Billy Crystal, John Goodman…

MANUEL: Jason Alexander, Rene Russo…

PIPER: Jason Alexander, Rene Russo, thank you. Keenan is in it, I mean, people we’re friends with now. There are huge movie stars in that movie. And Jonathan Winters, of course. Jonathan Winters is in it. There are massive, important talents in that film.

And so, for me, what I took away from being able to work with those artists and watch them work is so much more valuable than what the box office is. I don’t get any more money whether people go or not. So, at 20, I was learning so much by being on a set with De Niro. And I got Coyote Ugly right after I did Rocky and Bullwinkle. So, I know that you have to be responsible in some ways, but I also know I can only control what I can control.

TRADUÇÃO:

PIPER: Há dois lados no negócio do cinema. Um é o processo criativo e o outro é o lado económico.

E, de certa forma, tens a responsabilidade de cumprir a tua obrigação criativa ao máximo, como uma forma de mostrar responsabilidade perante a confiança e o dinheiro que as pessoas colocam no teu trabalho.

Mas, na verdade… e eu levo isso muito a sério, e faço o meu trabalho, e chego a horas, e compareço a todos os compromissos de imprensa, e apoio os filmes e séries em que trabalho, e o que faço no teatro. Porque acredito que isso faz parte da responsabilidade de ser contratado como ator. Mas é mais ou menos aí que termina. O meu trabalho é contar a história o melhor que consigo e colaborar com toda a gente. E o que acontece… isso eu não consigo controlar.

E por isso, tive muita sorte no Rocky e Bullwinkle, por ser encabeçado pelo De Niro. Havia tantos atores incríveis nesse filme. O Carl Reiner está nesse filme. A Jeanine Garofalo, a Whoopi Goldberg, o Billy Crystal, o John Goodman…

MANUEL: O Jason Alexander, a Rene Russo…

PIPER: O Jason Alexander, a Rene Russo, obrigado. O Keenan [Thompson] está lá, quero dizer, pessoas com quem agora somos amigos. Há enormes estrelas de cinema nesse filme. E o Jonathan Winters, claro. O Jonathan Winters está lá. Há talentos enormes e importantes nesse filme.

E, para mim, o que levei da oportunidade de trabalhar com esses artistas e de os ver trabalhar é muito mais valioso do que a bilheteira. Eu não recebo mais dinheiro se as pessoas forem ou não forem ver. Portanto, aos 20 anos, estava a aprender imenso só por estar num set com o De Niro. E consegui Coyote Bar logo depois de fazer Rocky e Bullwinkle. Por isso, sei que tens de ser responsável em certos aspetos, mas também sei que só posso controlar aquilo que consigo controlar.

Piper Perabo que, como já disse, é mais conhecida pelo seu trabalho em Coyote Ugly, o filme que lhe deu sucesso, também pela série Covert Affairs, mas ela em Abril, Maio, fez uma participação numa série pouco conhecida, chamada Anatomia de Grey, em que trouxe de volta uma das grandes tradições da série. E eu, obviamente, tinha que lhe perguntar sobre isso.

ORIGINAL:

Stephen [T. Kay] and I were coming out of the theater in New York when I got an email from my agent, and the subject was Grey’s Anatomy, and… It’s the 21st season of Grey’s Anatomy That’s how many years that show has been on — there are people who actually have graduated from med school, who were children, saw Grey’s Anatomy and wanted to become doctors, who are doctors now. And I opened the email, and it was a script of Grey’s Anatomy that the character is barely in.

And I read the scenes out loud to Steven, and we were like, laying on the floor in the house, and I was like, “why do they need me for this part? It’s like a mother who… she barely speaks, and I’m just mostly crying the whole time, and they want me to fly to LA to do this lady who’s crying, kind of in a C-storyline… There’s a lot of people who could— you don’t need me, you know, there’s a lot of people who could do that.”

And Stephen said to me “I mean, unless you’re gonna take a whole hospital hostage and blow it up, I don’t think you need to do it.”

And then I said, “can I talk to the showrunner?” And we got on a short call, she got on the phone with me, and I said, “just tell me what happened, like, I mean, why do they need me? And she goes, “oh, because in the third episode you’re gonna take the hospital hostage and blow it up.”

And I was like, “I’m gonna blow up the Grey’s Anatomy Hospital?” And she said, “yeah”, and I was like, “I’ll be right there”.

I was so excited! You know, Denzel [Washington] had done a movie called John Q., where they won’t operate on his kid, and it’s this really tight, tense thriller about, a little bit about the healthcare problems in America.

And so… I thought Denzel was really good in that it’s a really relatable obstacle, the stakes are so clear, like, anybody can understand that you, as a parent, would just sort of lose your marbles over that, and I was so excited to do it.

It was really fun to blow up the hospital.

TRADUÇÃO:

O Stephen [T. Kay] e eu estávamos a sair do teatro em Nova Iorque quando recebi um e-mail da minha agente, e o assunto era Anatomia de Grey, e… É a 21.ª temporada de Anatomia de Grey. É esse o número de anos que a série já está no ar — há pessoas que literalmente já se formaram em medicina, que eram crianças, viram Anatomia de Grey e quiseram ser médicas, e agora são médicas. E abri o e-mail, e era um guião de Anatomia de Grey em que a personagem mal aparece.

E li as cenas em voz alta para o Stephen, e estávamos deitados no chão lá em casa, e eu dizia: “porque é que eles precisam de mim para este papel? É uma mãe que… ela mal fala, e eu passo o tempo todo a chorar, e querem que eu voe para LA para fazer esta senhora que está a chorar, numa espécie de história terciária… Há tantas pessoas que podiam— não precisam de mim, percebes, há imensa gente que podia fazer isto.”

E o Stephen disse-me: “quer dizer, a menos que vás fazer reféns num hospital inteiro e explodi-lo, não acho que precises de fazer isso.”

E então eu disse: “posso falar com a showrunner?” E tivemos uma chamada curta, ela entrou ao telefone comigo, e eu disse: “diz-me só o que aconteceu, quer dizer… por que é que precisam de mim?” E ela diz: “ah, porque no terceiro episódio vais fazer reféns no hospital e explodi-lo.”

E eu fiquei: “vou explodir o hospital de Anatomia de Grey?” E ela: “sim”, e eu: “estou a caminho.”

Estava tão entusiasmada! Sabes, o Denzel [Washington] tinha feito um filme chamado John Q., onde não querem operar o filho dele, e é um thriller super apertado e intenso sobre— em parte sobre os problemas do sistema de saúde na América.

E então… achei que o Denzel estava mesmo muito bem nesse filme; é um obstáculo super relacionável, as apostas são tão claras, tipo, qualquer pessoa entende que tu, como pai ou mãe, perderias a cabeça com isso, e eu estava mesmo entusiasmada para o fazer.

Foi muito divertido explodir o hospital.

Piper Perabo, que esteve em Lisboa com o marido, Stephen T. Kay, colaborador habitual de Taylor Sheridan nos projectos que o autor de Yellowstone tem tido, sobretudo na Paramount+, que cá podem ser vistos na SkyShowtime, e Piper Perabo também já apareceu em alguns desses projectos.

Posto isto, vamos àquela primeira conferência de imprensa de que vos tinha falado, a do Giancarlo Esposito — que foi uma experiência em si só. Eu só perguntei ao Giancarlo que papéis é que ele gostaria de fazer, o que é que ele procurava. Ora, isto tornou-se em 10 minutos de resposta, mas que vale a pena ouvir. Era uma conferência de imprensa que devia ter demorado 30 minutos, mas acabou por durar 45, e por se transformar numa palestra motivacional.

ORIGINAL:

I just had this whole conversation with a friend of mine about reminding myself to empower myself.

I don’t wait for the big franchises to come for me. The whole reason Captain America happened was fan casting. They wanted me to play Charles Xavier and I ran into a Marvel rep and they knew that and I said “it would be great if that could happen” and he said “we’re not ready to do it, we’ve already done it”.

And I thought to myself, “why would I want to do something that’s already been done by other great actors? Why wouldn’t I want to do something new?”

And I looked at… You know, I love the people at Marvel, and I said to Nate Moore, I said, “well, look, I’d love to work with you guys. I think what you do is really great. It would be great if it was something different, something new.”

Then I had the opportunity to do Superman and fell in love with James Gunn. But that deal didn’t work out, the timing didn’t work out, and I could have twisted myself into a pretzel to have it work out, but it wasn’t right. And so what I love to do, you know, [Mr. Freeze], you know, yeah, I’d love to do some more comic stuff and I’ve had an opportunity to do games. The whole reason why I did a game wasn’t just to do a game.

I think you asked a question about the game. No, it was, who was it? [points towards a colleague] It was you, yeah.

The reason I did Far Cry 6 was because I wanted to know how they did that stuff! I mean, it was simple as that. Like, how do you do that?

And, you know, so part of me is really like inquisitive in wonder, enchantment and joy, as you should be in your life, and so I learned. You know, I had done a week on Mouse Guard for Wes Ball, never came out, movie never got made. So I was in the green suit before I knew that. I went back and worked with Coppola in Cotton Club, and we did all of our rehearsals on a green screen set. This is the next level of all that, you know, Moff Gideon in costume in a volume. How do you do that?

So Far Cry 6 was like I’m in a green suit, with a football helmet on my head, with a rail on the front, with two cameras and three lights in between staring into my face, and I had to act through that, with another actor, and I had sensors on every part of my body, my knuckles, my elbows, my knees, so everything could be then recorded and articulated. And I’m in a room where everything on the ceiling, you see all the lights, and you see all the boxes, those are all cameras. So they’re taking a big view of me, a facial view of me, and then they ship it off to these people over there behind their computers, and then they make me. I was like, “I want to know how that’s done!” You know, I was really inquisitive. So that’s why I do things.

So what’s in store for me, I read books, I’m a reader, so I find stories in books.

About six, eight months ago, I found a Stephen King short story, and I wrote Stephen King, and I said “can I get the rights?”, and he said “yes”, and then I had done a picture called Abigail.

I’m telling you this story for a reason: This is how you make it happen. Hamilton — there’s a line from Hamilton, the musical, “I want to be in the room where it happens.” Well, it don’t just happen! You got to put yourself in the room where it happens, right? You got to ask it, you got to invite it.

So I wrote Stephen, he gave me the rights, I’m at the premiere of Abigail — because you asked me what I want to do, plays into that, I want to make a horror movie, in that genre — and I met Guy Busick, who wrote Abigail, and the Scream guys directed it. And I met him at the party, and I had just written an email to Stephen, and he was a fan of mine, I’m a fan of his, we never met when I made the movie in Ireland.

And I was like, “Hey, Guy!”, and I almost, and I said, “Look, I’m going to want to talk to you, but I can’t talk to you, I want to work with you, I’ve got something in mind, you’ll hear from me soon.” And he started laughing, and he said “oh, I love what you do”, blah blah blah — and three months later, I signed the deal for the rights, and I called Guy and I said I got to Stephen King’s short story.

Then you have to be a salesman. In your life you have to put on and take off a lot of hats. So then I called him, and I had my salesman hat on. I said “Guy, I really love this, I really want you to write it, why don’t you read the story and let’s talk.”

And it turns out he had worked with Stephen King years ago, I had worked with Stephen King years ago, Stephen was a big fan of Gustavo and Breaking Bad, and it was seamless. So then we started working together for six months, and developed, took the short story, and started to talk about how we’d make it into a film. And then we started to pitch it to studios, and we pitched it… Perseverance plays into this, ten times, didn’t sell it. Finally we sold it, and Stephen has approved us, and as soon as Guy’s contract is signed, which is just about signed, we will start to collaborate on the ideas to make it into a feature film. So that’s one thing.

I want to do an action picture, so I’ve been buffing up and I really am still physical, so I want to take advantage of that, and do that.

I want to do a romantic comedy, so I’m talking to a writer about that, because when do you experience romantic comedies that have someone of a certain age (now I’m six years old, so I’m really still young, but when people who…

Look, I’ve been married and divorced, I have four children. So, but yeah, does that mean I can’t have love in my life? No, it doesn’t. And so because of the yearning for that partnership, I’ve thought, “oh, there’s a story there, about how do you find that again?” How do you become unjaded and find the right person for you? It’s different than it was when you were 20. It’s different than it was when you were 30. You’re looking for something a little bit different, that’s more of a match. And so a romantic comedy’s in store.

And then I have a graphic novel. I have an idea, because I’m half Italian, born in Copenhagen, raised in Italy, I had a hitman idea, because I love that genre, I love Matteo Garrone, I love Gomorrah, and so, and I’m Italian.

So I was able to have an idea about a hitman in Italy who’s from the States, who’s a mixed race person, and I sold it — salesman hat! — to Simon and Schuster, and they optioned it, and I got a writer, and I got a really wonderful artist, and we have a graphic novel, which is going to the publisher next week.

So we decided that we’re going to do the graphic novel, and then turn the graphic novel into a film, which I will star in, right? [laughs] So you figure out… And I’m passionate, you can see, you can feel my passion, right? This kind of story hasn’t been told before. And so we created that, and then I’m writing a memoir.

So that’s kind of what’s in store.

I look for things that haven’t been done. I one day want to play Pushkin, who is a Russian philosopher, poet, musician. I want to tell stories that are interesting, and I also have an interest in playing a guy… Paul Cuffee, who was the richest black man in America in the 1800s. But he was a Quaker. He lived in New England, and he built six whaling boats, and he was a master whaler, and he was a free man. He was part Indian, part black. He died broke, but he had an idea to colonize Africa with black people from America because they were slaves.

MANUEL: Liberia?

GIANCARLO: Not that story, but a part of Africa. And his story is kind of amazing. He eventually gave up on that idea, but he was free on the water as a whaler, as a sailor. But he was industrious. He would go out, and all the white whalers were jealous.

Whale oil, by the way, was like oil. It’s what lit the world.

And so he made so much money because he would go out, and he’d bring back more whales than anybody else, but that would put him over in Europe somewhere, he’d bring the whales back, he would go back to Europe, and he would buy steel. Why steel? Well, because he wanted to build another boat. And he would take chickens over and animals over, buy metal, come back, and make his own boat. The guy was a genius.

But stories like that I think are interesting.

TRADUÇÃO:

Acabei de ter uma conversa inteira com um amigo meu sobre lembrar-me de me empoderar.

Eu não fico à espera que os grandes franchises venham ter comigo. A única razão pela qual o Capitão América [Admirável Mundo Novo] aconteceu foi por causa do fan casting. Eles queriam que eu interpretasse o Charles Xavier e eu cruzei-me com um representante da Marvel, e eles sabiam disso, e eu disse “seria ótimo se isso pudesse acontecer”, e ele disse “não estamos prontos para o fazer, já o fizemos.”

E eu pensei: “porque é que eu haveria de querer fazer algo que já foi feito por outros grandes atores? Porque não haveria eu de querer fazer algo novo?”

E olhei para… Sabes, eu adoro as pessoas da Marvel, e disse ao Nate Moore: “olha, adorava trabalhar convosco. Acho que o que fazem é mesmo ótimo. Seria fantástico se fosse algo diferente, algo novo.”

Depois tive a oportunidade de fazer Superman e apaixonei-me pelo James Gunn. Mas o contrato não se concretizou, o timing não funcionou, e eu podia ter-me torcido todo para fazer aquilo funcionar, mas não era certo. E então, o que eu adoro fazer — sabes, [Mr. Freeze], sim, adorava fazer mais coisas de banda desenhada e tive oportunidade de fazer videojogos. A razão pela qual fiz um jogo não foi apenas para fazer um jogo.

Acho que tu fizeste uma pergunta sobre o jogo. Não, quem foi? [aponta para um colega] Foste tu, sim.

A razão pela qual fiz Far Cry 6 foi porque queria saber como é que eles faziam aquilo! Era tão simples quanto isso. Tipo, como é que isso se faz?

E, sabes, uma parte de mim é realmente inquisitiva, cheia de espanto, deslumbramento e alegria — como devemos ser na vida — e então aprendi. Sabes, eu tinha feito uma semana em Mouse Guard para o Wes Ball, nunca saiu, o filme nunca foi feito. Portanto, estive num fato verde antes sequer de saber. Voltei e trabalhei com o Coppola em Cotton Club, e fizemos todos os ensaios num set de croma. Isto é o próximo nível disso tudo, sabes, o Moff Gideon em fato, dentro de um volume. Como é que isso se faz?

Então Far Cry 6 foi tipo: estou num fato verde, com um capacete de futebol americano na cabeça, com um carril à frente, com duas câmaras e três luzes a apontar para a minha cara, e tinha de atuar assim, com outro ator, e tinha sensores em todas as partes do corpo — nos nós dos dedos, cotovelos, joelhos — para que tudo pudesse ser gravado e articulado. E estou numa sala onde, no teto, vês todas as luzes e todas as caixas — aquilo são câmaras. Estão a captar uma imagem geral de mim, uma imagem facial minha, e depois enviam aquilo para as pessoas ali atrás dos computadores, e depois eles fazem-me. Eu estava tipo: “quero saber como é que isso é feito!” Eu era mesmo inquisitivo. Por isso é que faço as coisas.

O que está reservado para mim? Eu leio livros, sou leitor, portanto encontro histórias em livros.

Há uns seis, oito meses, encontrei um conto do Stephen King e escrevi ao Stephen, e disse “posso ter os direitos?” e ele disse “sim”, e depois eu tinha feito um filme chamado Abigail.

Estou a contar-te isto por uma razão: é assim que fazes acontecer. Hamilton — há uma frase no musical: “I want to be in the room where it happens.” Bem, as coisas não acontecem simplesmente! Tens de te pôr na sala onde acontece, certo? Tens de pedir, tens de convidar.

Então escrevi ao Stephen, ele deu-me os direitos, estou na estreia do Abigail — porque me perguntaste o que eu queria fazer, e isto liga-se a isso: quero fazer um filme de terror, nesse género — e conheci o Guy Busick, que escreveu Abigail, e os tipos de Scream realizaram. E conheci-o na festa, e eu tinha acabado de enviar o e-mail ao Stephen, e ele era fã meu, e eu fã dele, mas não nos conhecemos quando fiz o filme na Irlanda.

E eu disse: “Ei, Guy!”, e quase… e disse: “Olha, vou querer falar contigo, mas não posso falar contigo agora, quero trabalhar contigo, tenho algo em mente, vais ouvir falar de mim em breve.” E ele começou a rir e disse “adoro o que fazes”, blá blá blá — e três meses depois, assinei o contrato pelos direitos e liguei ao Guy e disse que tinha o conto do Stephen King.

Depois tens de ser vendedor. Na vida tens de pôr e tirar muitos chapéus. Então liguei-lhe com o meu chapéu de vendedor. Disse: “Guy, adoro mesmo isto, quero muito que tu o escrevas, porque não lês a história e falamos?”

E afinal ele tinha trabalhado com o Stephen King anos atrás, eu também tinha trabalhado com o Stephen King anos atrás, o Stephen era grande fã do Gustavo e de Breaking Bad, e a coisa fluiu. Então começámos a trabalhar juntos durante seis meses, desenvolvemos, pegámos no conto e começámos a falar sobre como o transformar num filme. E depois começámos a apresentá-lo a estúdios — perseverança entra aqui — apresentámo-lo dez vezes, não vendeu. Finalmente vendemos, e o Stephen aprovou-nos, e assim que o contrato do Guy estiver assinado — está quase — começaremos a colaborar nas ideias para transformar aquilo num filme. Portanto, isso é uma coisa.

Quero fazer um filme de ação, por isso tenho andado a treinar e ainda sou físico, por isso quero aproveitar isso e fazê-lo.

Quero fazer uma comédia romântica, por isso estou a falar com um argumentista sobre isso, porque quando é que vês comédias românticas com alguém de certa idade? (Agora tenho seis anos — continuo muito jovem — mas quando pessoas que…)

Olha, fui casado e divorciado, tenho quatro filhos. Mas… isso significa que não posso ter amor na minha vida? Não, não significa. E por causa dessa vontade de parceria, pensei: “há uma história aqui, sobre como é que encontras isso outra vez.” Como é que deixas de estar cínico e encontras a pessoa certa para ti? É diferente do que era quando tinhas 20 anos. É diferente do que era quando tinhas 30. Procuras algo um pouco diferente, mais compatível. Portanto, uma comédia romântica está nos planos.

E depois tenho uma novela gráfica. Tive uma ideia porque sou meio italiano, nasci em Copenhaga, cresci em Itália — tive uma ideia de um assassino profissional em Itália que vem dos EUA, alguém mestiço, e vendi-a — chapéu de vendedor! — à Simon & Schuster. Eles fizeram a opção, arranjei um escritor, arranjei um artista fantástico, e temos uma novela gráfica que vai para a editora na próxima semana.

Então decidimos que vamos fazer a novela gráfica e depois transformá-la num filme, que eu vou protagonizar, certo? [risos] Portanto descobre-se… E eu sou apaixonado, dá para ver, consegues sentir a minha paixão, certo? Este tipo de história nunca foi contado antes. E criámos isso — e estou a escrever um memoir.

Portanto, é mais ou menos isso que está nos planos.

Procuro coisas que nunca foram feitas. Quero um dia interpretar o Pushkin, que é um filósofo, poeta e músico russo. Quero contar histórias interessantes. E também tenho interesse em interpretar um homem… Paul Cuffee, que foi o homem negro mais rico da América nos anos 1800. Mas era Quaker. Viveu na Nova Inglaterra e construiu seis barcos baleeiros, e era um mestre baleeiro, e era um homem livre. Era meio índio, meio negro. Morreu sem dinheiro, mas teve a ideia de colonizar África com pessoas negras da América porque eram escravos.

MANUEL: Libéria?

GIANCARLO: Não essa história, mas uma parte de África. E a história dele é incrível. Ele acabou por desistir dessa ideia, mas era livre na água, como baleeiro, como marinheiro. Mas era industrioso. Saía para o mar e todos os baleeiros brancos tinham inveja.

O óleo de baleia, aliás, era como petróleo. Era o que iluminava o mundo.

E ele fez tanto dinheiro porque saía, trazia mais baleias do que qualquer outro, mas isso punha-o algures na Europa, trazia as baleias de volta, depois voltava à Europa e comprava aço. Porquê aço? Porque queria construir outro barco. Levava galinhas e animais, comprava metal, voltava e construía o seu próprio barco. O homem era um génio.

Mas histórias assim acho interessantes.

Mesmo com a vertente das conversas, o Tribeca não deixa de dizer que é um festival de cinema, pelo que ainda consegui ver alguns filmes. É altamente improvável que surja em conversa nos Óscares, mas podia: If I Had Legs I’d Kick You, de Mary Bronstein, deu a Rose Byrne o Urso de Prata de Melhor Performance, no Festival de Berlim, numa excelente demonstração das dificuldades de ser mãe. O filme também contou com a estreia de Conan O’Brien como actor dramático. Está OK. O filme tem estreia marcada em Portugal para Fevereiro de 2026.

Outro dos filmes que passou por lá foi Match, primeiro filme do Duarte Neves, produzido pelo Ruben Alves, sobre um actor de novelas que se refugia no sexo para lidar com os problemas da sua vida.

Juro que é das coisas mais loucas que vi numa sala de cinema nos últimos anos. O Teatro Ibérico estava todo a tentar processar o que tinha acabado de ver. É um filme que poderá fazer algum barulho, quando vier a estrear.

Um que já estreou foi A Memória do Cheiro das Coisas, no início de Novembro. O filme também passou no Tribeca, e conta-nos a história de um antigo combatente na Guerra Colonial que vai para um centro de dia e passa a ser acompanhado por uma funcionária afro-descendente. Tem tudo para correr bem! Estive um pouco à conversa com António Ferreira, realizador, produtor, e co-argumentista do filme.

MANUEL: António, muito obrigado por teres aceite este convite.

ANTÓNIO: Foi um prazer.

MANUEL: Logo no momento em que vi o filme, sabia que queria querer falar contigo sobre ele.

É um grande trabalho, um trabalho muito humanista, que reflete muito bem, não só um, mas vários temas que são explorados ao longo do filme.

Foi uma decisão consciente a de explorar tantos temas e não se focarem apenas num?

ANTÓNIO: Sim, porque eles estão ligados, não é?

Eu acho que o tema central do filme é a questão do envelhecimento, embora com a particularidade de que este homem que é retratado no filme é um ex-combatente da guerra colonial e com todas as características adjacentes a um homem que teve essa experiência de vida.

E fazia parte, enfim, do conflito central do filme, e era isso também que eu queria abordar, o que é que acontece a um homem destes, que é educado, cresce, com esta mentalidade salazarista, em que olhávamos para as ex-colónias como parte de Portugal, como, aliás, um dos temas que eu usei no filme que é o “Angola é nossa”, que era uma ferramenta de propaganda do regime, era usada massivamente, diariamente na rádio portuguesa, para ir mentalizando a população que aquilo era uma guerra justa, que a Angola é nossa, a Angola é Portugal, etc.

E o que acontece a um homem desses, quando agora mais velho, vulnerável, a precisar de ajuda, quem está lá para o ajudar é uma mulher negra, portanto isso não é um facto irrelevante.

E a ideia era abordar através desta perspectiva do envelhecimento e desta fase de final de vida, abordar também toda esta questão do racismo estrutural, desta geração que está a desaparecer, são os últimos homens que ainda estão vivos, e abordar este tema, aliás, se pensarmos bem, Portugal é provavelmente no contexto europeu, provavelmente não, é no contexto europeu o único país que ainda tem uma memória viva de guerra.

Fomos os últimos a acabar com a colonização e ainda temos uma geração que está viva e que ainda está na guerra.

MANUEL: Fora os Balcãs e…

ANTÓNIO: Sim, fora os Balcãs.

MANUEL: Em que também viemos para lá tropas.

ANTÓNIO: E agora que vivemos num período em que se fala novamente de guerra e corrida ao armamento, não há um assunto menor.

Tenho algumas dúvidas que estes homens que passaram pela guerra estejam assim tão empolgados com esta ideia de eventualmente voltarmos a ter uma guerra no nosso território, portanto acho que é um assunto completamente pertinente.

MANUEL: Eu até diria que considerando as conversas que vêm sempre à tona lá por Abril ou por Novembro, quase como os Milagres de Fátima um mês depois e um mês antes, é essa memória que está a começar a fazer falta também.

ANTÓNIO: Exatamente.

MANUEL: E que se calhar não se registaram todas as aprendizagens que devíamos ter registado.

ANTÓNIO: Sim, nós damos por garantido certas coisas, nomeadamente os valores da Democracia e da Liberdade, e parece que não, porque de facto a memória é uma coisa extremamente importante, e apesar do assunto até ser abordado nas escolas, mas talvez não com o peso necessário, parece que o povo tem memória curta e de repente há quem tenta reescrever a história e reinterpretar os factos, nem que seja à luz de mentiras e corremos riscos verdadeiros de perder, de retrocesso.

MANUEL: Eu nem sei se comentei isto contigo no final do filme, mas nós estamos com 51 anos desde o 25 de Abril, e são poucos os projetos que temos tido, e muito mais focados no Século 21 sobre a guerra colonial, tanto filmes de ficção como o excelente documentário A Guerra (que se calhar devia estar disponível nos arquivos da RTP ou no RTP Play para mais fácil acesso em vez de termos que estar à pesca dos DVDs na Feira da Ladra, ou em segunda mão, ou onde quer que os apanhemos) e faz muita falta, mas lá está a exploração do tema dos idosos, nós acabamos por estar mais cientes, se calhar, com esta geração de idosos e de filhos, sobretudo, daquilo pelo qual os nossos pais e avós passam, não sei se concordas comigo, que se calhar somos gerações um pouco mais abertas e disponíveis para falar sobre isto, também.

ANTÓNIO: Sim, e enfim, mais não seja porque tivemos a experiência direta de convívio com os nossos pais, que foi o meu caso, que estiveram na guerra colonial, e o meu pai teve numa zona de combate, mesmo, porque nem toda a gente teve a mesma experiência da guerra, não é? E eu acho que esta geração… Impôs-se um grande silêncio sobre esta geração. Porque obviamente o 25 de Abril que era a comemoração do final da guerra e da ditadura, e parece que não ficou muito espaço para se falar do que é que de facto aconteceu lá. E eu posso falar, por exemplo, do caso do meu pai, ele raramente falou sobre isso no específico, sobre coisas que aconteceram lá, aquilo que nós fizemos durante a pesquisa de falar com os ex-combatentes, fomos a ligas, falámos com os psicólogos que os acompanham.

MANUEL: Foi muito difícil conseguir retirar informação?

ANTÓNIO: Não, até há uma vontade de falar agora, embora foi curioso constatarmos, por exemplo, que quando falávamos com os ex-combatentes diretamente, o que eles falavam era uma coisa, e depois quando falávamos com a psicóloga, por exemplo, que os acompanhava, a versão era um bocadinho diferente, nomeadamente, por exemplo, a questão do racismo, que eles diziam “não, não, não somos nada racistas, nada contra, não, não”, e depois quando falávamos com a psicóloga, “bom, a gente até confrontava, ah, a gente ouviu isto e isto, o que é que houve na intimidade?” E, claro, que o que ela dizia não era exatamente o mesmo. E isto são questões que só se resolvem falando abertamente, enfim… Faz parte do passado, não há um passado assim de tanto em tanto, mas não deixa de ser passado, e talvez acho que as pessoas sempre têm falta de espaço para poder falar abertamente disto, sem que a gente lhes aponte o dedo. E talvez por isso o silêncio.

E, por exemplo, uma questão curiosa, que nós até acabamos por incluir isso no filme, sobre esta questão do racismo, obviamente o negro era caracterizado como um inimigo, não se preparam homens para a guerra predispostos a matar, sem a desumanização do outro, nomeadamente o negro, que é “o terrorista”, “o turra”, “o assassino”, etc. Porque só assim é que um homem, perante uma situação de combate, aperta o gatilho sem hesitação.

Mas, por exemplo, com as mulheres era diferente, havia toda uma erotização da mulher. E, pronto, isto foi uma coisa que foi confirmada, por exemplo, eu tive longas conversas com a Mina Andala, que fez o papel de Hermínia, e ela disse, “Eu sempre que entrava num táxi onde era um ex-combatente, ouvia logo o comentário dizendo, ‘ah, eu estive em Angola, eu deixei lá um mulatinho’”, esse tipo de comentários sexualizados, etc. Portanto, a discussão é difícil, continua-se simplesmente a negar que há um racismo estrutural e as pessoas nem percebem que isto foram décadas de mentalização, literalmente de lavagem cerebral, à escala do país inteiro, e que isto não desaparece um dia para o outro. E como eu vejo muitas vezes esta nova velha extrema-direita a querer reescrever a história, que põe as coisas num certo tema, “ah, lá estamos, nós a mandámos para baixo”, não tem nada a ver uma coisa com a outra. São factos que aconteceram…

MANUEL: Tem a ver como reconhecer o passado.

ANTÓNIO: Reconhecer, e às vezes o simples facto de reconhecer é um ato de apaziguamento. Eu sinto isso muito por parte das pessoas, das nossas ex-colónias. Às vezes o que elas querem simplesmente é um reconhecimento que isso aconteceu. E só isso é um grande passo em frente para apaziguar essas velhas feridas. Na verdade é tão simples ou tão complexo quanto isso.

Porque talvez nesse momento essas pessoas se sintam vistas e reconhecidas do sofrimento e agressão brutal pela qual passaram.

MANUEL: Ainda bem que já referiste a Mina, porque queria trazê-la para cima da conversa, a Mina e o José Martins, porque estamos aqui com duas performances absolutamente incríveis. O José Martins chegou a ganhar o prémio no Festival de Hong Kong, se não estou em erro.

ANTÓNIO: Não, no Shanghai.

MANUEL: Shanghai, de melhor ator.

ANTÓNIO: Que, diga-se, é a primeira vez que um ator português ganha um prémio no Festival de Classe A, porque é um festival gigante que está ao nível de Cannes, de Veneza, essas coisas. É a primeira vez que um ator português ganha um prémio desses. Ele foi uma coisa mesmo muito espetacular.

MANUEL: E acredito que, naturalmente, estejas profundamente orgulhoso da performance de ambos. Eu pelo menos como espectador, fico muito feliz e acho que nunca tinha visto um papel deste tipo, ou dentro deste âmbito, tão bem interpretado, sobretudo o Zé.

ANTÓNIO: Sim, aliás, a Mina ganhou agora nos Caminhos do Senhor Português o prémio de melhor atriz.

Eu faço castings longos, porque os atores são a carne e o osso dos meus personagens. Uma coisa é nós estarmos na nossa intimidade sozinhos a escrever um argumento e a imaginar diálogos, outra coisa é depois que quando chegamos à rodagem ter essas palavras na boca de um ator ou de uma atriz.

E então eu faço processos bastante longos de casting, porque sei que vou ter que conviver com eles muitas semanas, muitas horas, muitas vezes sob stress, e que se não houver uma fusão mais ou menos perfeita e verdadeira entre aquilo que foi imaginado e, depois, aquilo que eles me conseguem dar, não funciona.

Eu faço um cinema de proximidade, eu costumo dizer que faço o cinema dos afetos, eu trato com carinho os meus personagens, não os julgo, mesmo quando eles são personagens detestáveis, como muitas vezes é o Arménio, no filme, que é um indivíduo racista e irascível, que maltrata o filho, mas ainda assim ele é tratado com humanidade, com honestidade.

MANUEL: Lá está, é que tu ofereces esse contexto também para a personalidade dele ser assim, e muitas vezes não vemos essa dualidade dos personagens, só vemos personagens completamente unilaterais, só vemos personagens uniformes que não têm essa profundidade.

ANTÓNIO: Sim, porque eu acho que nós não somos a preto e branco, não somos maniqueístas, todas as pessoas têm um lado bom e um lado mau, mesmo a pessoa mais virtuosa do mundo pode, com certeza, terá qualquer coisa de mau humor ou de intratável, e eu acho que é mais interessante e sobretudo mais honesto e verdadeiro quando nós tratamos os personagens dessa forma. Portanto, todos eles têm lados bons e lados maus, e é isso é o que os tornam humanos.

E fez com que eu quis mostrar exatamente, por exemplo, nomeadamente com o personagem Arménio, que a gente apontaria facilmente o dedo como “ah, o homem reacionário fascista”, mas eu quero também perceber porque é que ele é assim, que as coisas não acontecem por acaso. Porque é que nós temos uma quantidade tão grande de homens nessa geração com esse tipo de comportamento? Porque cresceu nossa mentalidade, mas temos que terem consciente que foram mobilizados para a guerra 80% dos nossos jovens, portanto, é uma geração inteira. Foram cerca de 80 mil, se não me engano, que foram mobilizados.

E o que aconteceu a essas pessoas que foram mentalizadas para olhar o negro como um inimigo, como uma ameaça, etc, e depois a guerra acaba, há uma revolução, e tipo, “volta lá para a tua terra e desenvencilha-te”, e nunca ninguém conversou com eles sobre nada, o país mudou radicalmente em 50 anos, o negro hoje tem uma posição completamente diferente na nossa sociedade, é o professor, é o apresentador do telejornal, é o namorado da filha, e esses homens, se calhar cristalizaram com essa mentalidade lá de trás.

E isso tem que ser olhado frontalmente, sem apontar dedos, que foi isso que eu tentei fazer, tipo, sem pôr uns do lado, outros do outro, e olharmos para eles, tentar compreendê-los, e acho que é essa reflexão que nos faz um pouco falta. Enfim, acho que estamos num momento particularmente de convulsão na nossa sociedade, que estamos entrincheirados, cada um do seu lado, a apontar o dedo para o outro, e pronto, continuamos com este percurso, vamos desatar todos à batatada, já não falta muito, já tem acontecido.

E eu queria um pouco desentrincheirar as posições e pôr-nos olhar de um lado para o outro, que é o que acontece no filme, ao fim e ao cabo. Aquele homem, agora, idoso, vulnerável, a precisar de ajuda, é obrigado a lidar com aquela mulher, negra; e ela, que evitaria sempre o contacto, com aqueles ex-combatentes que só mandam bocas fuleiras, porque trabalha ali, porque ele é mais um utente do lar, também tem que lidar com ele, e acabam por estabelecer contacto, conversar, dizer as coisas mais íntimas, e é nesse momento que nós conseguimos ver o outro, e não quer dizer que concordemos, pelo menos somos capazes de vê-lo e entendê-lo um pouco melhor, a outra parte, e quem sabe estabelecemos um laço, e foi isso que eu pretendi fazer com o filme.

MANUEL: Bom, o nosso tempo está a terminar, o filme já estriou num circuito comercial, não consegui falar contigo a tempo nessa altura, entretanto já esteve também nos Caminhos do Cinema Português, como já referiste, em Coimbra. Onde é que as pessoas poderão ver o filme agora, durante dezembro, janeiro?

ANTÓNIO: Nós em dezembro temos uma…

MANUEL: Cá em Portugal e lá fora.

Portanto, nós estamos agora de saída para Istambul, vamos estar lá no Festival de Cinema de Istambul, logo aqui vamos para Macau, um sítio de cinema da Cinemateca Macaense, sobre cinema luso-chinês, o filme ainda, eu acho que passou [26 de Novembro], a última sessão em Bogotá, e vamos ter em Portugal, agora umas sessões em cineclubes, temos já marcado dia 15 de Dezembro em Lisboa, no Turim, um cinema de teatro Turim, às 19h30, se não me engano, e já temos em Janeiro sessões para Aveiro e São João da Madeira, e penso que em Março em Vila Real, portanto agora vamos ter essas sessões, e o filme ainda está na Casa de Cinema de Coimbra, esta semana, uma sessão por dia, portanto agora é aquele percurso que se segue dos cineclubes um pouco por todo o país, pronto, a gente vai divulgando nos nossos canais, e para o ano que vem há de passar na RTP, no final do ano que vem.

MANUEL: Se precisares de uma mãozinha com a sessão de Aveiro, avisa-me, que eu dou lá um salto.

ANTÓNIO: Ah, ok, está bem, está bem. Mas és de Aveiro?

MANUEL: Sim, estou em Lisboa, mas sou de Aveiro.

ANTÓNIO: Ok, está bem.

MANUEL: Vai ser no Aveirense.

ANTÓNIO: Sim, vai ser no Aveirense, se não me engano, está para dia 20 de Janeiro.

MANUEL: Ok, ok, boa sala, boa sala. António, muito obrigado pela conversa.

ANTÓNIO: Obrigado eu.

MANUEL: Muitos parabéns pelo filme, mais uma vez, votos de imenso sucesso ainda para o caminho que o filme está a fazer.

ANTÓNIO: Obrigado.

MANUEL: Próximos projetos? Ainda estás focado neste e na distribuição e na amostra deste, ou já estás a planear…

ANTÓNIO: Sim, eu agora estou a retornar ao processo de escrita de um próximo projeto que, se tudo correr bem, até que conseguiria filmar no ano que vem, mas que pronto, enfim, o tempo passa, os projetos são sempre demorados, entre a primeira escrita e o aproximar da rodagem, passa-se algum tempo, bastante tempo normalmente, então mudam as ideias também, não é?

Ou melhor, a gente reajusta as ideias, e então estou a voltar, agora que está passada a asáfama da estreia, estou a voltar ao processo de escrita, que é sempre um processo longo e demorado, para mim o mais difícil de todos.

MANUEL: É, não é? É sempre…

ANTÓNIO: Não há nada mais tenebroso que uma página em branco.

Neste caso já não está em branco, mas enfim, agora surgiram ideias novas e obviamente também quando fazes um filme, percebes melhor o que é que funcionou, o que é que não funcionou, e depois tens o retorno das pessoas, dos espectadores, e a ideia agora é voltar à escrita, reajustar e partir para o próximo.

MANUEL: Acho que o mais chato às vezes é mesmo estarmos a tirar a coisa, quase que estarmos a arrancar a nossa alma para pôr em palavras. Acho que isso é o mais complicado às vezes.

ANTÓNIO: Sim, e antecipar, tens que imaginar como é que vai ficar no ecrã, enfim, não é fácil.

MANUEL: Pronto, António, mais uma vez, muitíssimo obrigado, até à próxima.

ANTÓNIO: Obrigado.

A Memória do Cheiro das Coisas, filme de António Ferreira com José Martins e Mina Andala.

Está então ainda nos cinemas em Coimbra e está a fazer tanto o circuito dos cineclubes um pouco por todo o país, e muito precisamos deles, como também o circuito de alguns festivais internacionais.

Toda a sorte do mundo para eles, é um excelente filme, merece ser visto e se calhar ainda vamos falar dele quando surgirem as nomeações para os prémios Sophia.

Já agora podem ter reparado durante a entrevista passámos alguns excertos da banda sonora original do filme, de Luís Pedro Madeira, que o António gentilmente cedeu para este podcast.

Está feito por hoje, foi muito mais longo do que eu esperava, muito mais longo do que se calhar vocês também esperavam.

Tenho que agradecer a quem está desse lado e a quem teve paciência para ouvir tudo ou mesmo partes (não se envergonhem, não há que ter vergonha nisso).

Apresentação, edição, produção, sonoplastia, montagem, imagem de capa, sabe-se lá como, tudo feito por mim, Manuel Reis. quando houver outras pessoas para dividir o trabalho, certamente que estarão aqui presentes nesta espécie de ficha técnica.

Eu volto no próximo episódio, que não é para a semana, parece que o segundo episódio já está disponível. Ninguém me tinha dito isto, mas parece que sim, por isso subscrevam o podcast onde quer que ouçam os vossos podcasts e podem já ouvir o segundo episódio, que começa, apropriadamente… Já a seguir.


2 comentários a “Meg Ryan, Giancarlo Esposito e Piper Perabo, António Ferreira (A Memória do Cheiro das Coisas)”

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    Elisabete Rocha

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